
Normalmente as máximas populares costumam estar certas, e a sabedoria do povo, originária de dezenas ou centenas de anos de conhecimento empírico, costuma acertar no ponto com as frases que nos deixam para a posteridade. “Nem tudo o que parece, é” é a melhor forma de descrever Schematic Void, um surpreendente puzzle game abstracto que está constantemente a apanhar-nos na curva, e que nos ludibria com os seus screenshots a assumirmos que é apenas mais um point-and-click puzzle game como tantos outros.
Desenvolvido pelo estúdio Meowton Games, Schematic Void é um daqueles jogos indie que aposta menos na explicação directa e mais na descoberta, convidando-nos a entrar num espaço abstracto onde o vazio tem mais peso do que aquilo que o preenche.

Desde os primeiros momentos no seu ambiente monocromático que sentimos que estamos perante uma experiência pensada para nos desorientar deliberadamente, com uma direcção artística minimalista e esquemática que parece saída de um manual técnico de um mundo que nunca existiu.
Mas é dessa abstracção que surge o tom humorístico e auto-consciente de Schematic Void: quebrando a quarta parede sempre que possível, com a ideia concreta que é, na realidade, um videojogo e que nos quer obrigar a virar todo o nosso raciocínio de forma lateral.

Sem nunca ter pressa nem vontade de nos dizer o que somos ou o que devemos fazer, em vez disso desafia-nos a observar, a experimentar, e a aceitar o desconforto mental como parte da necessidade de abstracção de raciocínio que nos quer provocar, e que precisamos de abraçar para resolver os seus muitos “níveis”.
É imediatamente claro que Schematic Void joga com a nossa percepção de espaço e de lógica: as mecânicas surgem de forma progressiva, obrigando-nos a aprender através de pequenas sugestões, por tentativas e pelo erro, mais do que por tutoriais explícitos.
Parte da nossa curta experiência e do seu desafio é sermos capazes de compreender as regras internas daquele universo estranho.

Schematic Void recusa-se a ser um jogo óbvio ou tradicional: é uma obra que quer que preenchamos as lacunas lógicas e encontremos sentido no vazio, oferecendo uma experiência única que só peca por ser curta.













