À primeira vista as lendas arturianas e dados têm muito pouco em comum, seja em termos geométricos – uma envolve uma mesa circular, e outro um cubo – mas o que o mais recente jogo publicado pela Yogscast Games faz é precisamente isso: cruzar as diferenças, mesmo que geométricas, e chegar a um ponto novo, mais à frente.

Numa época em que Balatro escancarou as portas para que roguelikes temáticos com jogos físicos (de azar ou de tabuleiro) tenham alguma atenção do público e da imprensa, rapidamente vemos surgir um género que já existe há muito em videojogos, mas sobretudo em jogos de tabuleiro: dicecrafting, ou mecânicas que nos permitem alterar e modificar dados de jogos.

Dicealot é na realidade inspirado na sua forma de pontuar por um jogo ainda mais antigo: Farkle, que se estima ter sido “descoberto” no Séc. XIV por um nobre britânico de visita à Islândia, sendo que o jogo foi mais tarde introduzido no continente americano por marinheiros franceses no Séc. XVII.

O objectivo de Farkle é chegar aos 10000 de pontuação, e para isso temos de obter pontos com o lançamento de dados. As sequências das faces tiradas têm pontuações e hierarquias distintas, à semelhança de jogos similares de cartas como o Poker, onde o lance mais valioso é a obtenção de seis faces iguais, e uma run completa de 1 a 6 a segunda mais valiosa.

O estúdio goodviewgames trouxe esse sistema de pontuação para um roguelike com um visual minimalista, que reproduz com pixel art a direcção de arte de iluminuras do período românico.

À semelhança de outros roguelikes, temos de tentar chegar o mais longe possível em cada run, alterando o nosso conjunto de dados, modificando-os, alternando-os, tal como faríamos em qualquer outro título do género. 

Para além disso, podemos também mudar os “atributos” de cada sequência de roll de dados, multiplicando-os ou diminuindo-os em detrimento de buffs noutros lançamentos.

Na primeira vez que derrotamos cada boss, desbloqueamos uma arma que podemos utilizar a partir desse momento em novas runs. Já o encaminhamento no sistema roguelike de cada run é feito por ramificação de decisões no caminho, sem grandes surpresas para quem já jogou muitos dos jogos do género que têm andado por aqui.

Porém, apesar de gostar muito do subgénero – em especial Dicey DungeonsDicealot é muito mais limitado em termos de oferta mecânica, demonstrando a sua repetição muito rapidamente, e monotonia associada.

Por outro lado, a direcção de arte ao estilo iluminura em pixel art é interessante, mas não é fácil de compreender o jogo a priori, e acredito que jogadores pouco experientes no género dificilmente vão perceber as nuances dos novos dados que nos são apresentados.

Dicealot é um interessante roguelike dicecrafting game, que peca por termos já oferta indie muito superior no seu género: seja pela diversidade ou pela capacidade de nos manter investidos em querer jogar “apenas mais uma run”, que é algo que este jogo infelizmente não consegue fazer.