
Seria muita lata da minha parte achar que os 2 anos da cadeira anual de Psicologia que tive na Faculdade seriam suficientes para pensar que posso fazer algum tipo de terapia a alguém sem ser a mim mesmo, que conto habitualmente com o auto-conforto trazido pelos diálogos internos que tenho comigo mesmo a tentar resolver o muito que por aqui vai dentro.
Nunca me posicionei nas minhas relações de amizade como um terapeuta, mas sinto que equilibro alguma incapacidade de falar sobre alguns problemas mais profundos com outros, com a habilidade de ser um bom ouvinte. Diria até que é a forma como apoio os meus amigos de forma directa e honesta uma das razões para confiarem em mim em momentos bons, como em momentos maus. Alertando também, algo que professo há anos: há muitos problemas que meras conversas com pessoas em quem confiamos não vão conseguir resolver, e para essas (e não só) a terapia é o caminho que todos deveriam seguir.

No entanto, a premissa de Therapy Simulator – um jogo que à semelhança dos seus congéneres, avisa logo ao que vem e o que é – activou a minha vontade de medir o quanto conheço da psique humana, num ambiente controlado, em que as minhas respostas virtuais não vão interferir na vida real de ninguém.
Therapy Simulator leva-nos a viver a vida de um psicoterapeuta na primeira pessoa. Começamos o nosso dia de trabalho ao sair do elevador que dá acesso à nossa clínica, e ao interagirmos com o nosso computador podemos ver o nosso calendário de marcações, e uma simples interacção vai permitir que o primeiro paciente chegue. Mais um clique e podemos convidá-lo a entrar na sala connosco.

Mecanicamente o jogo é extremamente simples: passamos a maior parte do tempo a escolher entre 3 opções de diálogo, e os nossos pacientes irão reagir ao que dissemos através de expressões faciais, ou, em casos extremos, se sentirem magoados ou ofendidos, simplesmente saírem porta fora, com a certeza que não irão regressar.
Este tipo de opções – uma resposta positiva, uma neutra e uma negativa – vão encadear as próximas linhas de diálogo e definir a eficácia do nosso trabalho em conduzir o paciente no melhor caminho da sessão de terapia. Tudo isto tendo em conta também o grande relógio posicionado estrategicamente atrás do paciente para que possamos terminar a sessão e começar uma nova.

Joguei apenas à demo, e apesar de ter alguns laivos de humor, acho interessante Therapy Simulator ter tido a coragem de enveredar por um caminho necessário nos dias de hoje: o de alertar para a necessidade de tomarmos conta da nossa saúde mental, tal como tomamos conta da nossa saúde física. Com mecânicas expectavelmente limitadas, há aqui elementos interessantes que me fizeram – após anos de terapia – imaginar o que é estar no sofá do outro lado da dor.













