
Não há momento algum em que tenha de cobrir um videojogo mais direccionado ao público infanto-juvenil sem que as sábias palavras que a ilustradora Carla Nazareth me disse há quase 20 anos, no meu primeiro dia de trabalho na minha defunta carreira de ilustrador infantil me ecoem de imediato. Uma ideia tão simples, e que sinto que tanta gente que trabalha para este público menospreza: trabalhar conteúdo para crianças tem de acarretar um imenso respeito intelectual por elas.
O que quer dizer que, seja na densidade narrativa, ou em termos de videojogos, que muitos criadores confundem diferentes estados de desenvolvimento com falta de capacidade e exigência criativa.

A ironia desta postura, é que bastam-nos alguns segundos para nos lembrarmos de como a Nintendo chega e comprova esse respeito que devemos ter com o nosso público, mesmo que essa audiência seja mais juvenil. E deita por terra a atitude “para quem é, bacalhau basta” de muitos criadores.
Não posso dizer que Nicktoons & The Dice of Destiny seja um desrespeito criativo com o público para quem se destina, muito pelo contrário, mas diria que é difícil que crianças que já tenham jogado jogos da Nintendo ou até alguns indies familiares, consigam sentir-se entusiasmados para lhe dedicar muito tempo.

Em Nicktoons & The Dice of Destiny o personagem Timmy da série Fairly Oddparents deseja viver na primeira pessoa os seus videojogos favoritos, e a sua transformação num feiticeiro de um tradicional jogo de fantasia medieval abre-lhe um portal com essa possibilidade.
Mas esse portal não fica por aí, trazendo consigo outros personagens de outros IPs da gama Nicktoons, nomeadamente SpongeBob Squarepants que é aqui um clássico cavaleiro, com mais resistências físicas que os seus companheiros.

O compromisso visual de incorporar personagens vindos de séries distintas não é fácil, e para quem jogou Super Smash Bros. rapidamente reconhece a maravilha técnica e artística em tornar coesas todas aquelas personagens tão distintas. O mesmo não acontece aqui em Nicktoons & The Dice of Destiny: o estilo mais simples sem sombras funciona em alguns personagens, mas noutros tornam-nos sensaborões.
Este é um action RPG extremamente simples, que só não é mais limitado visto que cada personagem tem uma classe distinta, e uma ligeira diferenciação entre si. É claro que o título se assume como um gateway para o género, com as suas cores vibrantes e os seus níveis lineares e um combate simples, e infelizmente, para mim, um pouco repetitivo.

Tenho de reconhecer, porém, que para combater esta monotonia o jogo Nicktoons & The Dice of Destiny se esforça para implementar uma grande variedade de inimigos, que contribuem, ligeiramente, para que o loop mecânico não seja ainda mais cansativo.
Depois de muitos anos sem jogos de crossover de Nicktoons, este The Dice of Destiny assume-se como uma porta de entrada do público mais novo a action RPGs, e não faz um mau serviço nessa vontade. Mas para crianças com um hábito de videojogos ligeiramente acima de casual, este jogo rapidamente demonstra que para além do visual brilhante, o nível de repetição de acções e ataques o tornam um jogo limitado para toda a família.













