
Há quem diga que não se deve voltar a locais onde se foi feliz, mas eu discordo. Para além de conhecer coisas novas, eu adoro ficar na minha zona de conforto, o que habitualmente significa rever séries que já vi mais do que uma vez, ou rejogar jogos que já vi joguei tantas vezes que seria capaz de os jogar de cor.
A minha fase insaciável de JRPGs durou muitos anos, após o primeiro contacto com FF VII. E essa fome materializou-se em andar para a frente e para trás na história do género, conhecendo alguns dos seus baluartes, e estando disponível para ser apresentado aos seus novos bastiões.

Curiosamente conheci a série progenitora do género – e que faz este ano 40 anos – pela sua sétima iteração, na PS1. Mais uma passagem de testemunho de um amigo que tinha à época e que servia de uma espécie de dealer para tudo o que eram jogos nipónicos por turnos.
Vender-me a ideia de Dragon Quest em 2002 não era difícil, já que o jogo se cruzava na intersecção de dois universos importantes para mim naquela altura (e na realidade, até aos dias de hoje): os JRPGs e a mestria de Akira Toriyama.
Depois de o ter devorado, viria a reencontrá-lo na 3DS há precisamente 10 anos, num artigo que parece ter sido escrito noutra vida. E talvez tenha mesmo sido.
Dragon Quest VII Reimagined surge agora como uma reinterpretação de um dos capítulos mais extensos e narrativamente densos da série, conseguindo modernizar a experiência sem perder a identidade clássica que o define. Aliás, é a terceira versão do jogo, e por o ter acabado em todas as suas iterações sinto que desbloqueei alguma espécie de achievement. Possivelmente, e se eu estiver enganado quanto a não existir nada após a morte, pode ser o próprio Toriyama a sorrir por me ver a reviver a experiência co-desenvolvida por si.
Lançado em Fevereiro de 2026, este remake aposta numa apresentação visual totalmente renovada que tem como objectivo, sobretudo, fazer desta versão uma porta de entrada para a série para novos jogadores. É que depois de completar a sua história posso dizer que estamos aqui perante uma das melhores – quiçá a melhor – versões tridimensionais da linguagem visual do mestre Akira.
Desde os primeiros momentos em Dragon Quest VII Reimagined o novo estilo artístico em forma de diorama se destaca como uma das maiores conquistas desta versão, e segue em linha com os jogos do género que a Square Enix tem lançado. Os cenários tridimensionais, ricos em cor e detalhe, conjugam-se harmoniosamente com o traço único de Akira Toriyama, criando um mundo colirido e consistentemente encantador.

Esta perspectiva de dioramas detalhados dá, a quem já percorreu este mundo noutras iterações, uma nova vida às cidades, ruínas e paisagens naturais que compõem a estrutura episódica do jogo.
A narrativa, centrada na exploração temporal e na reconstrução gradual de um mundo fragmentado, sugere-nos uma estrutura em episódios que continua a ser o eixo central da progressão, permitindo contar múltiplas histórias independentes que, em conjunto, formam um retrato amplo da condição humana, da esperança e da perda. Com os muitos enredos desenvolvidos nas muitas ilhas no passado que descobrimos a enriquecerem o nosso investimento emocional.
É que em Dragon Quest VII Reimagined vamos coleccionando fragmentos de estelas que, depois de finalizadas, abrem portais para ilhas isoladas no passado. Completar a storyline em cada uma delas permite que essas ilhas surjam no presente, levando-nos a navegar até elas no nosso tempo e percebermos as mudanças que ocorreram desde que as salvamos algures no passado.
Essa ponte entre passado e presente, entre amigos que já faleceram e o contacto com os seus descendentes é um dos pontos mais interessantes em termos narrativos.

Em termos mecânicos, o sistema de combate clássico por turnos recebe uma modernização interessante com a introdução das Vocational Perks, aliada ao novo sistema de Moonlighting, que permite combinar duas vocações em simultâneo, abrindo um leque estratégico notavelmente mais amplo, promovendo uma experimentação constante em termos de builds.
Estas Vocações servem como arquétipos com estatísticas e habilidades próprias, permitindo-nos ir construindo os nossos personagens dentro de builds definidas por nós. Ao invés de termos personagens que obrigatoriamente serão de suporte ou ofensivos, podemos jogar com as vocações em linha dupla para optimizar os nossos personagens.
Para a qualidade de vida de um jogo que, sem surpresas, exige muito grind, a introdução de batalhas mais rápidas, opções de auto-combate e inimigos visíveis no mapa reduz drasticamente o desgaste associado ao grinding. Uma modernização sistémica que consegue equilibrar o respeito pela tradição da série com uma adaptação clara às expectativas contemporâneas.

Depois de dezenas de horas, de ter descoberto todas as ilhas opcionais, de ter maximizado todas as vocações em todos os personagens (o que me levou a estar num nível tão elevado que as boss fights, até a última que representa algum desafio, foram um verdadeiro passeio no parque) há dois pormenores que não permitem que Dragon Quest VII Reimagined seja um JRPG quase perfeito – apesar de estar perto – para a magestosa aventura e enredo que possui.
O primeiro é o pouco impacto que os itens têm, especialmente os consumíveis, dado o leque de habilidades disponíveis graças ao sistema de vocações. Terminei o jogo com dezenas de poções, antídotos e afins, apenas porque a concepção das builds permitiu-me sempre criar equipas equilibradas com capacidade de cura.

A segunda é o pecado típico da maioria dos JRPGs (e não só): a extensão semi-artificial do jogo ao nos obrigar a revisitar grande parte dos locais onde já fomos antes de derrotarmos o boss final. Compreendo que estamos a falar da reinterpretação de um jogo com 26 anos, mas para os standards de hoje, ou para a minha paciência de quarentão, prefiro que os jogos queiram narrativamente ir direitos ao assunto. Se a máxima popular diz que os homens não se medem aos palmos, então eu reforço que os jogos não se avaliam pela longevidade.
Ainda assim, é-me difícil não reconhecer a verdadeira pérola que é Dragon Quest VII Reimagined. Desde a actualização artística soberba que faz jus à linguagem única de Toriyama, passando pela aventura pelo tempo e pelo espaço que serviu de fios condutores para excelentes sub-histórias, algumas delas que me trouxeram lágrimas aos olhos.

Com um excelente elenco e um ainda melhor enredo, Dragon Quest VII Reimagined é mais do que um portão escancarado para novos jogadores conhecerem a série que deu origem aos JRPGs, em ano de aniversário redondo: é uma forma para todos, mesmo aqueles que, como eu, já visitaram e revisitaram esta história, de a saborear com um sabor diferente.













