
Depois de dois excelentes novos títulos que deram um novo fôlego, não só à série como à Capcom, reintroduzindo o estúdio japonês como um dos mais capazes e ricos a nível de franquias e produções e ainda dois fantásticos Remakes, Resident Evil Requiem decide dar continuidade e volta a trazer-nos para uma história mais familiar.
Foi com o olhar sob o ombro do zombie do original para a PlayStation 1 que fui introduzido à série, mas apenas como espectador. Passava as tardes em casa de um vizinho a jogar e a ver jogar muitos jogos que apenas anos mais tarde descobri os seus nomes, como Hogs of War e Legacy of Kain. Um resumo dos anos 1990 num parágrafo na verdade. Optei por ir para o outro lado da barricada e cresci com um Game Boy e uma Nintendo 64 – feliz.
Aquela imagem nunca me saiu da memória e depois de várias tentativas e desistências com jogos de terror como Fatal Frame e Silent Hill, lá o género me conquistou através de Dead Space. Desde aí recuei uma geração para terminar jogos de culto como os que referi e na PS3 redescobrir Resident Evil com o quinto capítulo da saga. Hoje reconheço como não sendo um dos melhores, mas, na minha inocência, saciou.

Mas não foi RE5 que me deu o que sinto pela franquia, na verdade, foi Resident Evil 7 que verdadeiramente conquistou. Uma ansiedade que parecia não desaparecer e que me deixou cativado, até hoje. Um dos meus jogos favoritos de sempre dentro da série e do género e depois de experimentar Requiem na Gamescom e sentir exatamente aquilo que senti no 7 e descobrir que era Kōshi Nakanishi o diretor, automaticamente se tornou no meu mais aguardado de 2026.
Requiem apresenta-nos uma fórmula que não é nova para a Capcom nem para os jogadores, colocando-nos perante uma campanha dividida entre dois protagonistas. Grace Ashcroft, a novata frágil e inexperiente, e Leon S. Kennedy, um favorito dos fãs já calejado e experiente após enfrentar tantos zombies ao longo da sua carreira.
Esta mistura entre o velho e o novo funciona muito bem ao longo de toda a campanha. Com Grace, os segmentos são mais lentos e furtivos, com menos armas, itens limitados e, claro, momentos muito mais assustadores do que os de Leon. São secções tensas e desconfortáveis, que criam uma ansiedade constante, fazendo lembrar bastante Resident Evil 7 e Resident Evil 2. Servem também para demonstrar a vulnerabilidade de Grace enquanto introduzem alguns dos inimigos mais horrendos de toda a série, oferecendo-me alguns dos meus momentos favoritos do jogo.

Por outro lado, Leon é o total oposto: um verdadeiro tanque de guerra sobre duas pernas, capaz de eliminar hordas de zombies como se não houvesse amanhã. O protagonista de Resident Evil 4 faz valer a sua experiência, recorrendo a um vasto arsenal de armas de fogo e a um engenhoso machado que se revela bastante útil em combate corpo a corpo. Assim, combina o melhor da ação, do terror e da sobrevivência, deixando os seus admiradores completamente rendidos, não só pelas várias referências aos jogos que protagonizou, mas também pelas suas clássicas one-liners, que por momentos nos fazem esquecer que Resident Evil Requiem ainda possui uma réstia de terror.
A Capcom recomenda jogar com Grace na primeira pessoa e com Leon na terceira, enaltecendo o melhor de cada vertente da campanha. No entanto, oferece também aos jogadores a possibilidade de escolherem a perspetiva que preferirem, algo inédito na série. Trata-se de uma homenagem a todo o legado de Resident Evil, à revolução trazida por Resident Evil 4 e à evolução e experimentação iniciadas em Resident Evil 7. Felizmente não existe opção para tank controls, mas creio que ninguém sente falta disso.
Apesar de ser uma experiência, na sua maioria, memorável, o jogo não está isento de falhas. Tal como acontece em muitos outros títulos, os vilões são pouco marcantes e não têm qualquer impacto significativo na história. Estão presentes apenas para fazer avançar uma narrativa que, embora competente, não acrescenta muito mais do que isso.

É curioso ver tantos fãs a criticarem Resident Evil 6 quando alguns segmentos de Leon aqui parecem saídos de um filme de Michael Bay, tão over the top que, por momentos, pensei estar a jogar Devil May Cry e Metal Gear Solid. Sei que muitos vão adorar, sobretudo por envolver o Leon, mas para mim foi um pouco exagerado.
São várias as referências a personagens de outros jogos com que nos deparamos ou que são simplesmente mencionadas. É uma autêntica carta de amor aos fãs que decidiram permanecer após todos estes anos, inclusive aqueles que conseguiram manter-se de pé a dar uppercuts numa pedra gigante e a lidar com capas de girafas questionáveis. A história revela-se consideravelmente mais importante do que a dos dois títulos anteriores e parece, finalmente, querer dar continuidade a tudo aquilo que foi sendo construído antes da introdução de Ethan.
O grafismo é algo que muitos tentam apresentar como o fator definidor de um bom jogo, quando na realidade raramente o é… mas é impossível ficar indiferente a Resident Evil Requiem. Trata-se do jogo mais bonito alguma vez concebido pela Capcom e um dos mais impressionantes a nível visual. Desde a iluminação, com o Ray Tracing a enaltecer os ambientes, até ao detalhe das personagens, onde até pelos de gato são visíveis na roupa de uma personagem que aparece apenas duas vezes. É daqueles jogos que quase parecem justificar o investimento numa PlayStation 5 Pro ou num bom PC.

Ainda assim, há algo que nunca pode ser esquecido em qualquer obra de entretenimento que aborde o terror: o áudio. A música e a direção sonora foram, são e continuarão a ser os elementos mais importantes de qualquer experiência deste género. Funcionam como o fio condutor da narrativa e ditam o nosso estado emocional em diferentes momentos da ação. Servem para nos oferecer breves momentos de alívio, apenas para logo a seguir sermos surpreendidos pelo som súbito de um jarro de vidro a tombar, ou para nos manterem constantemente tensos através de um zumbido estridente que parece não desaparecer, deixando-nos ansiosos e em permanente alerta.
Tudo isto é algo que Kōshi Nakanishi já tinha demonstrado dominar em Resident Evil 7, dirigindo Resident Evil Requiem com a mesma precisão. Irei lembrar-me de vários momentos do jogo, não pelos inimigos que enfrentei, mas pelos sons que os acompanharam.

Mesmo tendo algumas críticas quanto à quantidade de ação e aos momentos dignos de Velocidade Furiosa, a verdade é que este é mais um excelente jogo por parte de uma equipa que parece ter encontrado o seu ritmo e que dificilmente falha. Um dos melhores jogos de 2026 e aquele que eu dizia ser o meu mais aguardado do ano. Felizmente, provou ser um verdadeiro merecedor desse título.













