Existe algo muito curioso nos batráquios dentro dos videojogos. Criaturas pequenas, viscosas, elásticas, capazes de saltos improváveis e línguas que parecem desafiar as leis da física, acabam repetidamente transformadas em protagonistas de mundos inteiros. Talvez seja porque o próprio corpo de um sapo já parece um mecanismo de jogo à espera de ser explorado: impulsos, trajectórias, superfícies escorregadias, terrenos húmidos onde cada movimento conta. Nesta edição de O Albergue dos Silêncios, três projectos muito diferentes partem dessa base biológica quase caricatural para construir experiências surpreendentemente distintas — desde puzzles que reorganizam o mundo como um caderno de notas desalinhado, a plataformas de precisão onde a língua se torna ferramenta acrobática, até expedições geladas onde sobreviver significa escavar, arriscar e regressar vivo mais um dia. No meio de estilos e ambições divergentes, todos parecem provar a mesma ideia: às vezes basta um anfíbio obstinado para transformar um simples salto num sistema inteiro de jogo.

Walk The Frog

Walk The Frog Studio

2026 – PC, iOS

Walk The Frog propõe uma pequena inversão curiosa: em vez de resolver puzzles dentro de um mundo já pronto, o jogador reconstrói esse mundo peça a peça. Cada nível apresenta-se como um conjunto de notas adesivas ilustradas que precisam de ser organizadas para abrir caminho a Froggo, um anfíbio determinado a regressar à sua lagoa a tempo do festival de primavera. A mecânica de arrastar e largar é deliberadamente simples, mas revela uma elegância rara — cada solução funciona como um momento breve de clareza, quase como se o cenário se reorganizasse na nossa cabeça antes de se organizar no ecrã. O resultado é um puzzle game que privilegia o ritmo pessoal de quem joga, sem cronómetros nem pressão, deixando espaço para observar o mundo com calma.

Esse ritmo tranquilo combina com uma aventura centrada em encontros e pequenas histórias. Pelo caminho, Froggo cruza-se com criaturas excêntricas que pedem ajuda e, por vezes, devolvem o favor, criando uma sucessão de episódios leves sobre amizade, cooperação e regressos a casa. A estética 2D desenhada à mão e a banda sonora ambiente reforçam essa sensação de aconchego, transformando cada capítulo — da floresta à cidade dos insectos, passando por campos abertos — num espaço onde o jogo prefere convidar do que desafiar. Mais do que um teste à inteligência, Walk The Frog funciona como uma pausa deliberada: um mundo que se recompõe lentamente enquanto acompanhamos um sapo que só quer chegar a casa.

Croak

WoodRunner Games 

Data de lançamento não definida – PC

Em Croak, um príncipe transformado em sapo descobre que a sua língua é muito mais do que uma curiosidade anatómica — é a ferramenta que redefine todo o movimento. Este precision platformer aposta em mecânicas aparentemente simples, mas capazes de produzir uma dança acrobática de impulsos, saltos e ricochetes através de centenas de salas meticulosamente construídas. Cada desafio pede reflexos rápidos e uma leitura quase matemática do espaço, enquanto elementos interactivos do cenário obrigam o jogador a pensar no trajecto seguinte antes mesmo de aterrar. O resultado é aquele tipo de jogo de plataformas que parece acessível nos primeiros minutos, mas que lentamente revela uma curva de aprendizagem exigente, recompensando persistência e precisão, segundo o que nos diz o autor do jogo.

A viagem atravessa um reino envenenado por vinhas mortais e por uma maldição que transformou os seus habitantes em animais, conduzindo-nos por pântanos húmidos, minas assombradas e montanhas cobertas de neve até às portas de um castelo amaldiçoado. Pelo caminho surgem segredos escondidos, colecionáveis e confrontos com bosses que obrigam a adaptar estratégias em cada uma das suas fases. Tudo isto ganha vida através de arte desenhada à mão e animações tradicionais, uma escolha estética que sublinha o cuidado quase artesanal do projecto. Por trás do jogo está também uma história curiosa: nascido durante o confinamento de 2020 e desenvolvido por uma pequena equipa que começou como um projecto apaixonado entre amigos, Croak acabou por crescer até se tornar numa experiência ambiciosa que mistura conto de fadas fragmentado com plataformas de precisão.

FROGGY HATES SNOW

CRYING BRICK

Data de lançamento não definida – PC, PlayStation, Xbox 

Há jogos que tratam o frio como cenário. Froggy Hates Snow transforma-o numa mecânica de sobrevivência. Neste roguelike passado num deserto gelado, jogamos como Froggy, uma pequena rã de cachecol no pescoço que decide enfrentar um mundo onde cada passo para fora de casa é um risco calculado. A estrutura é simples mas eficaz: sair do abrigo, escavar túneis na neve, enfrentar criaturas inesperadas e regressar com recursos suficientes para continuar vivo mais um dia. A neve, longe de ser apenas decoração, torna-se matéria viva — pode servir de cobertura em combate, esconder tesouros ou revelar armadilhas quando derretida. Entre pás, lança-chamas e explosivos, cada escavação é uma aposta sobre o que poderá estar enterrado logo ali por baixo.

Mas o jogo encontra o seu ritmo na tensão constante entre risco e recompensa. Cada nova região gelada traz um boss próprio, caminhos alternativos e decisões difíceis: usar chaves para escapar ou arriscar tudo por melhorias mais poderosas. À medida que as gemas acumuladas desbloqueiam novas habilidades, armas e companheiros improváveis — pinguins, toupeiras ou corujas — o jogador molda gradualmente o seu estilo de sobrevivência. Pelo meio surgem zonas de anomalia que prometem artefactos raros em troca de desafios brutais. O resultado é um ciclo de exploração e adaptação que mistura humor excêntrico com perigo real: num momento estamos apenas a escavar tranquilamente na neve, no seguinte estamos frente a frente com criaturas de obsidiana que parecem ter escapado de um pesadelo de fantasia sombria.