Há jogos que acompanhamos à distância no lançamento, como se estivéssemos a ver pela montra. Balatro foi um desses; tenho um telemóvel novo, portanto fui adquirir esta obra que tantos falam e que eu perdi na altura do seu lançamento. O jogo não promete nada de especial, não anuncia grandes intenções. À primeira vista é pouco mais do que um baralho de cartas com umas regras estranhas, e a primeira vez que o abri estava com expetativas bem altas depois de ter lido tanto sobre o jogo sem o poder experimentar: muita curiosidade, expectativas lá  no alto.

A premissa cabe numa frase. Jogar mãos de poker, acumular pontos, comprar jokers com efeitos especiais, sobreviver a rondas cada vez mais exigentes. Simples. O tipo de jogo que se percebe em dois minutos. E foi precisamente por isso que não vi a armadilha a tempo; mas sabia da sua existência. Queria  ser apanhado pela armadilha tal como um rato vai para a ratoeira para comer um bom queijo.

O poker é apenas a ponta do icebergue. Por baixo há uma pequena máquina de optimização que vai revelando as suas engrenagens aos poucos, e a velocidade a que isso acontece depende inteiramente dos jokers que aparecem na loja. Há jokers que fazem coisas simples — acrescentam uns pontos aqui, um multiplicador ali. Depois há os outros. Um que duplica o multiplicador de cada flush jogado. Outro que recompensa cartas vermelhas com fichas extra. Outro ainda que ganha força cada vez que se descarta. Individualmente são peças soltas. Juntos, na combinação certa, começam a formar qualquer coisa que já não se parece nada com poker.

Lembro-me de uma run em que tudo encaixou de uma forma que não estava de todo a planear. Tinha construído um baralho à volta de pares — estratégia modesta, pouco espectacular — quando apareceu na loja um joker que multiplicava os ganhos pelo número de cartas descartadas na ronda anterior. Parecia inútil para o que estava a fazer. Comprei na mesma, por curiosidade. Duas rondas depois tinha reorganizado tudo: o baralho, a ordem das jogadas, a forma como usava os descartes. A partida que parecia mediana transformou-se numa das melhores que fiz. Não por planeamento, mas por ter seguido uma ideia até ao fim.

É esse o verdadeiro talento do jogo. O sistema não cresce de forma linear — cresce por saltos, por descobertas, por acidentes bem aproveitados. E quando o sistema funciona mesmo? O ecrã enche-se de números gigantes, os sons saem directos de uma máquina de casino dos anos noventa, e há uma satisfação estranha em perceber que aquilo correu exactamente como planeado. Não fizemos nada de útil. Não existe nada fora daquele momento. Mas durante uns segundos a sensação é genuinamente boa.

Depois vem a derrota. Um boss blind na altura errada, um joker essencial que nunca apareceu na loja, uma decisão precipitada que deitou tudo por terra. O curioso é que isso raramente irrita. Em vez de frustração instala-se qualquer coisa mais parecida com análise: talvez tivesse guardado aquele joker, talvez tenha comprado cedo de mais, talvez a estratégia estivesse certa mas faltasse apenas mais uma ronda. Cada falhanço parece ter uma explicação, e cada explicação transforma-se imediatamente num argumento para tentar outra vez.

Há jogos que exigem semanas para chegarem a esse ponto. Mundos enormes que demoram horas a abrir, histórias que pedem investimento emocional prolongado antes de darem qualquer coisa em troca. Balatro não pede nada disso. Não tem personagens memoráveis, não tem narrativa que valha a pena seguir, não tenta sequer disfarçar que é essencialmente um puzzle matemático com estética de casino barato. E ainda assim consegue qualquer coisa que muitos desses jogos maiores tentam durante horas sem sucesso: a sensação de que cada decisão tem peso, e que cada tentativa pode revelar qualquer coisa que ainda não estava lá.

A próxima run nunca parece repetição — parece correcção. A oportunidade de testar a teoria que nasceu do erro anterior. E quando damos conta, passaram quarenta minutos e não há nada que justifique racionalmente o tempo gasto. Há apenas a sensação persistente de que o sistema está sempre a um pequeno ajuste de funcionar na perfeição.

É uma ilusão, claro. Mas é suficiente para fazer de conta que não.