
Net.Attack(), da ByteRockers’ Games, surge como uma proposta para inovar no espaço de survivors-like com grande ênfase no roguelike. Focado numa mecânica de construção de armas através de código que devemos agrupar por nódulos, é de facto algo que promete ser interessante e fresco. Confesso que, tal como acontece com tantos projectos indie de grande promessa, a minha reacção inicial foi de um ceticismo educado. Mas, como os anos desta indústria me ensinaram, não devemos julgar uma mecânica pela capa.

A Engenharia do Caos: O Sistema de Nódulos de Net.Attack()
Se há algo que faz o meu coração bater mais depressa, e não é apenas o excesso de café ou as palpitações de quem já viu demasiados clones de Vampire Survivors, é a capacidade de um jogo me entregar ferramentas complexas e dizer: “Agora, faz magia!!”. Em Net.Attack(), o ex-líbris é, sem sombra de dúvida, o seu sistema de nódulos. Aqui, o gameplay não se resume a fugir de hordas; resume-se a saber se o teu cérebro consegue acompanhar a tua destreza.Se o trabalho na secretária não for feito e bem feito, vais pagar no campo.
A mudança de chip é o coração do loop, em vez de um sistema linear de progressão onde escolhemos passivamente mais 5% de dano num menu insípido, somos empurrados para a secretária para começar a bater código. Temos de estruturar as nossas armas por nódulos, garantindo que os nossos agentes em campo possam derreter os adversários com a eficiência de um servidor de alta performance. É um exercício de arquitetura lógica, cada nódulo ligado é uma variável que pode resultar numa sinergia devastadora ou num erro crítico que nos deixa à mercê da horda.
A forma como fazemos estas combinações é entusiasmante e, confesso, quase pedagógica. Ver o resultado do nosso código em tempo real no campo de batalha é espetacular (ou terrível), mas não se enganem, para quem não tem noção de lógica ou sintaxe, a curva de aprendizagem é íngreme como uma parede de firewall russa!!
Ainda assim, Net.Attack() brilha nesta componente. É uma lufada de ar fresco que traz uma profundidade tática deliciosa, sendo uma excelente variação da típica árvore de habilidades a que estamos tão habituados e que, sejamos honestos, já começa a cheirar a mofo (ainda gosto de ti, árvore de habilidades tradicional ;) ).
Este não é um jogo simples, nem tenta sê-lo para agradar às massas. É um título que exige atenção, curiosidade e uma vontade genuína de debugar os seus sistemas complexos. Para quem estiver disposto a ultrapassar a barreira inicial da sintaxe, encontra uma experiência profundamente recompensadora e original. A conjugação entre o frenesim do survivors-like e a profundidade quase académica da construção de armas resulta num loop viciante. É, no fundo, um jogo que respeita a inteligência do jogador; não nos leva pela mão como se fôssemos estagiários no primeiro dia de emprego a tentar descobrir onde fica a máquina do café. Aqui, ou programas a tua vitória, ou o sistema apaga-te sem aviso prévio.

Atmosfera e arte – Hackear em tons cyberpunk.
Agora, vamos à parte em que tenho de ser aquele gajo chato que aponta o pó no móvel da sala. Infelizmente, para mim, a componente visual não é cativante. Estamos perante uma direcção artística algo monótona, com pouca espetacularidade. Falta ali aquele pózinho de perlimpimpim que torne a experiência visualmente estimulante. Às vezes, parece que estamos a olhar para um terminal de rede corporativo, o que até faz sentido tematicamente, mas cansa a vista após algumas horas. Mesmo os efeitos especiais falham em trazer aquele feeling certo, aquele “WOW!” frenético que esperamos num survivors-like.
As arenas diferentes na realidade trazem pouco de diferente, estamos sempre num cenário que parece mudar muito pouco e, apesar de ser sempre diferente, parece sempre igual.
As personagens são muitas e diversas em estilo de jogo, porém em termos de desenho não fazem o efeito, mais uma vez, isto relativo ao meu sentido de estética, pois acredito que mesmo não sendo ao meu gosto pessoal está bem feito, só falta um pouco de alma.
O mesmo se aplica ao departamento sonoro. É funcional, cumpre o seu papel, mas não esperem cantarolar as músicas enquanto vão comprar o pão no dia seguinte. É uma atmosfera que, por ser tão contida, acaba por não ajudar na envolvência.
E com tudo isto posso dizer que sou grande fã de estética cyberpunk, synthwave e semelhantes.

E então!! Devo comprar Net.Attack()?
A responsabilidade de inovar num género tão saturado é enorme e, felizmente, o jogo aguenta esse peso e transforma-o em identidade. Apesar das arestas por limar na componente estética e sonora que, como já referi, fica algo aquém, a alma mecânica do jogo é inegável.
Para mim, é simples: sim, deves jogar Net.Attack(). Especialmente se fores um entusiasta de sistemas profundos e de jogos indie que não têm medo de ser ambiciosos e diferentes. Por 7.99€ não há que enganar!!
Net.Attack() é um título que traz algo de novo ao teu catálogo da Steam, é um jogo que revela criatividade e vontade de inovar. Pode não ter a música ou a arte mais espetacular, terá também os seus percalços no gameplay, ainda assim é um jogo fácil de pegar, rapidamente divertido e se quiseres ainda dá profundidade e progressão para dias de diversão.
Agora, se me dão licença, tenho um erro de sintaxe no meu nódulo de dispersão que está a dar cabo da minha paciência… e da minha sobrevivência.














