Grind Survivors: Carnificina, Loot e Resiliência Ucraniana

Grind Survivors chega-nos como o primeiro grito de originalidade da Pushka Studios. Depois de anos a carregar o piano para outros, fazendo ports e trabalhos de bastidores, este pequeno estúdio ucraniano decide atacar esta arena sobrelotada dos survivors-like. E deixem-me dizer-vos, para quem, como eu, passou anos a evitar este género como se fosse uma atualização forçada do Windows, encontrar dois títulos interessantes num curto espaço de tempo (depois do que escrevi sobre Net.Attack()) é um sinal dos tempos.

O Grind em Grind Survivors: A Slot Machine da Morte

Em termos de mecânicas, não vamos fingir que a Pushka reinventou a roda. No entanto, ao injetar o ADN de um looter-shooter clássico num survivors-like, cria uma experiência perigosamente aditiva. Somos atirados para a arena contra hordas de demónios que começam como um ligeiro incómodo e rapidamente se tornam numa parede de carne, espinhos e chifres. O grande triunfo aqui é o fetichismo pelo loot. O arsenal é gerado procedimentalmente, o que alimenta aquela esperança irracional de que o próximo inimigo vai deixar cair “A Arma!”, aquele roll quimérico que nos faz sentir como deuses por cinco minutos, antes de percebermos que precisamos de mais recursos para o próximo upgrade.

O jogo oferece várias personagens, uma disponível no início e mais 3 que podemos desbloquear à medida que progredimos, cada uma com habilidades distintas que moldam o início da tua sobrevivência.Cada uma destas personagens traz uma diferente forma de jogar, por meio das suas habilidades temos esta diferenciação, que não é enorme, mas é notável no estilo de jogo. Mas para ser muito honesto, as personagens são giras e tal, mas é o arsenal que brilha, isso sim é um grande diferenciador e motor do jogo.

Temos uma enorme variedade de armas, que são muito distintas no estilo de jogo a que obrigam, desde o poderoso revólver que é excelente para matar os grandes (e pequenos) bosses, até a incrível arma Tesla que é altamente indicada para enormes varreduras acompanhadas de um notável espetáculo visual de raios.

Estas armas aparecem numa variedade de raridades e ranks, num sistema popularizado desde há muito em jogos como Diablo, comum, incomum, rara, épica e lendária. Com cada rank vem mais poder, com cada raridade mais atributos e possibilidade de personalizar mais.

O sistema de crafting permite aumentar raridade, aumentar cada um dos atributos da arma e inclusive aumentar o rank, sempre com toada de slot machine, pois podemos perder todo o progresso que temos na arma cada vez que tentamos aumentar alguma das coisas já mencionadas. Portanto, a cada tentativa podemos perder todos os recursos que já gastamos com determinada arma..vício e jogo…indicado para um inferno de demónios.

O Loop funciona, mas para não variar o chato tem queixas

Se o game-loop é uma máquina bem oleada, a apresentação visual e sonora é onde vou novamente resmungar (é importante para mim).

A arte cumpre. Transmite bem aquele futuro distópico sombrio, embora as arenas (ou biomas, se quisermos ser generosos) sofram de uma certa falta de imaginação, parecendo muitas vezes mais do mesmo. Onde o jogo realmente brilha é nos efeitos especiais. Dizimar uma horda e ver o ecrã explodir em cores e itens brilhantes é de uma satisfação quase primitiva.

No som é que a porca torce o rabo. Toda a espetacularidade visual é sabotada por um design sonoro que parece ter sido deixado para a última hora. Num jogo onde o impacto é tudo, falta aquele je ne sais quoi auditivo. É como ver um concerto de heavy metal com o som de uma grafonola avariada, a satisfação visual é esbatida por um áudio que não acompanha a violência no ecrã. É caso para um grande Meh!

E então, vale a pena o investimento?

Por 12,99€, a Pushka Studios está a pedir um valor ligeiramente acima do esperado neste género, que seria algo até 9,99€, o que pode fazer alguns jogadores hesitarem. No entanto, a qualidade da execução e o vício do loot justificam o preço para quem procura uma diversão sólida e horas de matança despreocupada.

Sendo a primeira investida original destes senhores, Grind Survivors é uma entrada com o pé direito num mercado saturado. É um jogo que sabe o que quer ser e não pede desculpa por isso. Com tudo isto observado, vou com um sorriso desbravar mais uns quantos demónios com a minha caçadeira nova.