Há uma altura em que todos os jogos inspirados por Vampire Survivors começam a confundir-se na nossa memória: mudam os personagens, muda a direção artística, mudam os efeitos visuais, mas permanece sempre a mesma sensação de caminhar em círculos enquanto o ecrã explode em projéteis. 

Mas fiquei muito surpreendido quando percebi que TerraTech Legion evita esse destino porque troca o protagonista por uma máquina montada peça a peça pelas nossas próprias mãos, como um carro de Lego Technic construído com o único intuito de ser uma máquina de destruição sobre rodas.

Em TerraTech Legion, em vez de controlarmos um herói ou um guerreiro, montamos um veículo modular que “cresce” durante cada partida, munido de armas, serras, motores, lagartas, escudos e toda uma coleção de componentes que vão sendo encaixados como se estivéssemos a montar um brinquedo customizado para ser o mais mortífero possível. Cada melhoria que colocamos no seu sistema de blocos altera não apenas os números da folha de estatísticas, mas a própria forma como o veículo ocupa espaço e se move pelo mapa, o seu peso e a sua velocidade.

Essa dimensão física distingue-o imediatamente dos restantes representantes do género, já que a posição das armas importa dados os cones de visibilidade e ataque de cada uma, assim como o equilíbrio da estrutura influencia a condução e o facto de que cada nova peça nos obriga a pensar se estamos a construir um tanque imparável ou um amontoado de sucata prestes a desintegrar-se ao primeiro embate com a horda que nos persegue.

Depois de ter jogado dezenas de jogos do género, sinto que poucos roguelites conseguem transformar o processo de evolução em cada run numa actividade tão tangível quanto TerraTech Legion.

Apesar de ter completado tudo o que TerraTech Legion tinha para me dar, sinto que depois de várias horas, alguns cenários e inimigos começam a parecer demasiado semelhantes, mas felizmente, essas limitações raramente comprometem aquilo que verdadeiramente importa: o prazer de experimentar construções, chassis e tipos de armas diferentes.

Porque ao contrário de tantos outros dos seus congéneres, TerraTech Legion vive precisamente dessa curiosidade: cada run é um convite a tentarmos uma estratégia de construção diferente, a trocar velocidade por resistência ou alcance e diversidade de arsenal por destruição pura. Os seus autores percebem que a recompensa e a diversão deste género não estão apenas em sobreviver mais alguns minutos, mas em descobrir uma configuração absurda que, contra todas as probabilidades, acaba por funcionar.

TerraTech Legion recorda-nos da alegria infantil de construir veículos improváveis com peças espalhadas pelo chão da sala, uma actividade que preencheu dias e dias da minha infância. A diferença é que, desta vez, essas invenções não ficam esquecidas depois da brincadeira, e os seus canhões não são meras peças inertes cujos sons de ataque eram proferidos pela minha boca. Mas são veículos divertidíssimos de construir que levamos para o campo de batalha rodeados de milhares de robôs hostis e descobrimos, a cada segundo que sobrevivemos, que afinal a criatividade também pode mesmo ser uma arma.