Como tornar um jogo de condução que roçava a perfeição ainda mais obsessivo e memorável? Fácil: transportem-no para o teu destino de sonho e reencontra monumentos, paisagens, grande parte da cultura que te encantou quando o visitaste e até o local onde fizeste o pedido de casamento. É um golpe baixo por parte da Playground Games, há que admitir, um estúdio que tem a tarefa árdua de entregar dois AAA no mesmo ano, mas, por tudo aquilo que joguei de Forza Horizon 6, é um golpe bem-sucedido.
A verdade é que o Japão pode soar a uma aposta que quer apenas aproveitar-se do fanatismo que tantos de nós temos pelo país. Uma tentativa de expor a nossa veia geek, nerd ou o que queiram chamar, a ecoar por entre as ruas de Tóquio. Não deixa de ser verdade, mas o Japão é também um dos epicentros da cultura automóvel, com grandes marcas como Nissan, Toyota, Mitsubishi e tantas outras, corridas e desfiles noturnos de automóveis, drifts sem fim e, claro, modificações exuberantes. Elementos que começaram no país nos anos 60 e 70 e que continuam a fazer parte desta cultura até aos dias de hoje.
Como honrar este país? Como homenagear este amor e influência pela cultura automóvel? Como não dececionar os fãs que desde sempre imploram para trazer o festival até esta icónica região? Perguntas difíceis, às quais a Playground parece ter a resposta. Das visitas turísticas que apresentam a cidade de Tóquio e muitos dos monumentos que embelezam as redondezas da região, aos lendários carros provenientes dos maiores fabricantes do país, viaturas icónicas que se tornaram lendárias dentro e fora do Japão e que nos dão agora oportunidade de as experimentar da forma que quisermos.

Imagem por @xam3lpt
São mais de 550 carros e, por entre a lista, é notório que existiu uma clara atenção para com as marcas japonesas. A oferta da Honda, Subaru e outras é muito superior à de títulos anteriores e, como fanático da Mitsubishi, dá gosto ver esta seleção, ainda que sinta falta de um Eclipse de 99. Obviamente que marcas como Ford, Ferrari e Lamborghini continuam a marcar presença, oferecendo um vasto leque de carros para colecionar e conduzir, uns mais extravagantes que outros.
São várias as formas que temos para obter todos estes veículos: através do showroom, onde pagamos o valor completo; da Auction House, com as melhores ofertas; Wheel Spins, com o seu fator de aleatoriedade que ou se ama ou se odeia; ou, claro, os Barn Finds, onde encontramos as tais lendas dos fabricantes japoneses, carros intemporais que marcaram o Japão, com o jogo a fazer questão de os apresentar de forma exímia, contando um pouco da sua história e impacto.
Mas é o mercado secundário que mais me fascinou, vendas aleatórias de carros em desconto espalhados pelas ruas, uma estreia na série. A sensação de ir para uma prova e, a metros de distância, encontrar um Porsche Cayman GT4 é algo maravilhoso, muitas vezes colocado estrategicamente para nos oferecer mais uma escolha para o tipo de corrida ou desafio a que vamos. É algo que alimenta a cidade e a torna natural, viva, ajudando à forma coesa como a Playground construiu o mapa.
A homenagem à cultura japonesa não passa só pelos biomas e pela própria cultura automóvel, passa pela música, pelas mascotes representando comida típica e pelas próprias corridas oferecidas ao jogador. De um lado temos o Horizon Festival, que desta vez leva-nos a subir por entre vários rankings após uma série de corridas, com cada pulseira a conduzir-nos até corridas memoráveis por diferentes zonas de Tokyo. Este é o Horizon que já conhecemos: corridas tradicionais em pista normal e terra batida, que nos vão obrigando a alternar e adaptar às restrições de cada prova, desta vez com uma evolução mais natural e calma por entre as diferentes classes.
Do outro lado, Discover Japan, uma playlist com missões de história e descoberta que nos apresenta o melhor da cidade e região, mas também as famosas Touge, provas de drift por entre as encostas montanhosas que me transportam para Initial D, com ainda corridas noturnas que nos dão liberdade total para escolher como e quando correr, remetendo a Velocidade Furiosa: Tokyo Drift, que para muitos de nós foi a porta de entrada para a cultura automóvel que se vive neste país.
Existe, de facto, imenso para fazer em Horizon 6. Abrindo o enorme mapa, somos abalroados pelas centenas de ícones que pintam o ecrã. É um elemento que abomino nos jogos atuais e com o qual tantos de nós brincamos, comparando-o com grande parte dos jogos da Ubisoft. Aqui não sinto o mesmo. Desde descobrir as mais de 600 estradas, a partir placas ou mascotes de Ramen, Onigiri e Edamame, dos saltos extensos em íngremes ravinas a provas de velocidade que metem à prova o motor e o kit de unhas. Existe tanto para fazer e, mesmo após 40h, continuo a querer mais.

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Felizmente, conduzir pelo mapa é um deleite. Ao contrário do México, a transição entre os diferentes biomas faz sentido, das montanhas cobertas de neve de Sotoyama às praias reluzentes da região de Ito, chegando ao coração de Tóquio, que agora sim posso dizer que é uma cidade onde dá gosto correr. Nada parece forçado, levando a uma sinergia entre os diferentes ecossistemas, trazendo algo novo sempre que decidimos deambular pelo mapa, ativando a Anna para apreciar as magníficas paisagens.
Passar pela imponente Torre de Tóquio encarnada depois de uma passagem em drift pela famosa Shibuya Crossing, ou então andar lado a lado com o Shinkansen, com o Monte Fuji no horizonte. Forza Horizon 6 é uma carta de amor ao Japão por tudo o que já referi, mas consegue ir mais longe. Por entre as marcantes corridas de transição entre pulseiras está um embate frente a um mech gigante. O estremecer da estrada, os foguetes nos seus pés e as várias referências às mais memoráveis séries de animação são agora a minha melhor memória e momento em toda a série. Uma surpresa não pela sua presença, mas pela forma como é entregue, e parte dessa culpa vem também da música.
Sou um inegável fã de One Piece e, assim sendo, fã de Ado. Ouvir New Genesis, música do filme Red, a acompanhar todo este momento deixou-me em êxtase. Foi um momento inesperado que me fez sorrir, momento esse que se repetiu ao ouvir Zutomayo de Dandadan, Idol de Oshi no Ko e, acima de tudo, Bling-Bang-Bang-Born de Mashle, a icónica música dos Creepy Nuts. Temas de famosos anime que dizem algo a mim e a tanta gente e que acompanham tantos outros temas japoneses presentes em Gacha City, uma nova rádio criada em especial para o jogo e que poucas vezes me fez mudar de estação. Ainda assim, não se preocupem, existem várias músicas memoráveis por entre XS, Pulse, Bass Arena e as restantes rádios clássicas da série, com bandas e temas de Linkin Park, Rise Against, Pendulum, Tommy Richman, Joji e até Babymetal, uma vez mais formando uma das melhores bandas sonoras em videojogos.
Graficamente é um Forza e acho que isso já diz tudo aquilo que precisam de saber. Chegámos a um ponto em que jogos de condução já quase nem conseguem surpreender, não pela falta de fidelidade, mas exatamente pelo oposto: excesso dela. O melhor elogio que posso dar de todo o mundo e, em especial, aos vários modelos é que, tal como acontecia no jogo anterior, veremos fotos fantásticas a surgir do Photo Mode, fotos dignas de postais que, uma vez mais, nos farão querer regressar a Tóquio.

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Desde sempre que menosprezamos jogos de condução e aquilo que oferecem, assim como jogos de plataformas no que diz respeito ao “jogo do ano” ou GOTY, se preferirem. É algo que me escapa. Um jogo é um jogo e o género pouco ou nada importa para a sua qualidade e impacto. Forza Horizon 5 foi o meu jogo favorito de 2021, um título que consumi durante horas e que em tudo me conquistou, mesmo não sendo eu fã de jogos de condução à exceção dos velhinhos Need for Speed e Burnout. Assim sendo, é quase previsível o que vou dizer sobre este novo capítulo.
Forza Horizon 6 oferece o melhor da franquia, aliando-se a uma região que tantos de nós sonhamos visitar, nunca descartando a qualidade ou menosprezando a entrega necessária. Japão e Tóquio não só constituem o melhor mapa e país alguma vez presente num jogo da série, como levantam a questão: para onde vamos a seguir? Superou tudo o que o México tinha para oferecer, fazendo-me viciar durante horas. Gears of War e Halo podem continuar a cingir-se como as “caras” da Xbox, mas é Forza Horizon quem mais alto eleva o nome da marca, mesmo que muitas vezes não tenha esse reconhecimento. Um jogo de condução que é muito mais do que isso e, para mim, o melhor de 2026.
E, como tal, recebe um 10/10.













