Vampire Crawlers_20260526212925

Vício
ví.ci.o ‘visju
nome masculino

  1. defeito pelo qual uma pessoa ou uma coisa se afasta do tipo considerado normal, ficando inapta a cumprir determinado fim ou a desempenhar certa função
  2. hábito profundamente enraizado de ações consideradas moralmente condenáveis; libertinagem; desregramento; desmoralização
  3. prática de atos geralmente prejudiciais ou moralmente censuráveis; mau hábito; costume condenável
  4. disposição natural para algo; propensão irresistível; tendência
  5. erro contra as regras da arte ou da ciência
  6. hábito repetitivo de praticar certos atos; erro sistemático; mania
  7. dependência em relação ao consumo de determinada substância (álcool, tabaco, etc.)

A definição da palavra vício terá que certamente sofrer uma alteração nos próximos tempos, já que eu não posso considerar Vampire Crawlers nem um hábito condenável (só for do ponto de vista dos monstros, ladrões, morcegos, minotauros, etc.) e nem um acto prejudical ou moralmente censurável.

Contudo, no ponto 6 da definição da palavra pelo Dicionário Porto Editora, já tenho de concordar. Vampire Crawlers é decididamente um hábito incrivelmente repetitivo… mas de um repetitivo tão belo e delicioso que poderia ficar ali horas e horas a criar novos combos de cartas atrás de cartas até que o meu ecrã ou PlayStation se autodestruíssem.

O spinoff do aclamado Vampire Survivors, Vampire Crawlers chegou com a mais intensidade e capacidade de hipotinizar quem decidiu adquiri-lo a troco de 10€, uma quantia extremamente pequena perante a monstruosidade de experiência que aqui está.

Publicado pelo genial Luca ‘poncle’ Galante em cooperação com o estúdio Nosebleed Interactive (Arcade Paradise, Vostok Inc. e The Hungry Horde), este novo vício veio na forma de um roguelike baseado em cartas, com o utilizador a ser convidado a criar os seus baralhos/decks a cada novo mapa.

Mapa? Mas que mapa? Cartas? Baralhos? Antes que vos confunda mais do que um novelo de esparguete demasiado cozido, o videojogo arranca convosco na vossa aldeia (a vossa base de operações) onde podem recrutar um crawler. Cada crawler possui o seu superpoder seja comprar uma carta extra, manter o combo entre turnos, duplicar dano dependendo do combo que está a ser montado, etc., sendo que ao início arrancam com um, tendo que descobrir os outros ou completar certas tarefas para desbloquearem os restantes.

Posto isto, daqui têm de abandonar a aldeia e partir em busca de glória, e dos vampiros, claro está! Cada mapa têm os seus segredos e objectivos, garantindo acesso a mais ferramentas, cartas, crawlers, mecânicas, etc., tudo no sentido de permitir que o utilizador se torne o maior duelista de cartas de todo o universo.

Mas então onde está a parte viciante? O que faz com que uma pessoa fique agarrada a Vampire Crawlers durante horas, dias, semanas e meses a fio? Podemos primeiro separar todas as partes para perceber o quão majestoso é esta experiência no seu todo.

Começo pela ciência do próprio bicho, o lançar cartas e criar combinações que fazem qualquer um se sentir como se estivessem no universo Yu-Gi-Oh!. Sim, o início parece algo lento, mas quando começam a coleccionar cartas a cada esquina ou quando destroem uma horda de inimigos, o bichinho começa a se desenvolver. Cada carta tem o seu custo, seja 0,1,2,3,4 (ou mesmo -1, mas isso vocês terão de descobrir sozinhos), possuindo também a sua própria funcionalidade e evolução. Existem cartas vermelhas, roxas, amarelas e azuis; existem também cartas que só podem ser utilizadas por uma vez; e existem outras que podem servir para dar um boost ao vosso combo.

Não vale a pena explicar a funcionalidade e capacidade de cada carta, já que isso é uma descoberta que vocês próprios devem fazer – seria como revelar o que está dentro dos embrulhos de Natal antes que abrissem.

O que importa dizer é que existem milhares de possibilidades de combinações que podem ser construídas num só mapa, oferecendo ao utilizador a capacidade de se tornar um semideus… ou não, porque há riscos associados.

Um combo de grande maravilha (Foto: Vampire Crawlers)

Um combo de grande maravilha (Foto: Vampire Crawlers)

Novamente, não vou descrever todos os riscos inerentes ao jogo, mas posso revelar dois, começando por aquele que me surpreendeu mais: as cartas podem se partir. Exactamente isso. Se utilizarem uma carta no mesmo combo, durante o mesmo turno, ela pode começar a se estilhaçar como se tratasse de um bocado de vidro. Caso continuem a insistir em jogá-la, então algo de extremamente terrível irá acontecer – mas tentem, tentem, porque tem bastante graça.

O segundo risco é o facto de que todo o poder possível poderá não ser possível frente a um boss, já que terão de fazer uma grande gestão dos vossos baralhos, tomando em atenção não só os combos, mas também ao que o próprio adversário irá fazer.

Cada horda de inimigos e bosses têm o seu poder de dano que será aplicado em vocês no final de cada turno ou mediante certas condições especiais. Por isso, não é apenas um jogo de aplicarem combos, de encontrarem cartas novas ou de poderem fazer uma tonelada de dano; é um jogo em que têm de revelar estratégia, perceber o que está à vossa frente e de antecipar movimentos, mesmo que não seja o mais estrondoso e genial.

 

Como em Vampire Survivors, por vezes a melhor defesa é o melhor ataque, existindo um requinte especial por detrás de um jogo que, à primeira vista, parece ser do tempo da outra senhora quando é algo fresco, inovativo e vibrante. Cada combo é, ao mesmo tempo, um jogo de xadrez que requer minúcia mas também é uma avalanche de fogo-de-artifício que teima em não cessar. Cada horda de inimigos, cada boss, cada boss secreto e cada mapa têm diferentes camadas que actuam como um massivo íman que vos agarra até ao momento que vão para a cama.

Comecei Vampire Crawlers sem expectativas, apesar de ter amado Survivors com todas as minhas forças, e platinei-o carregado de vontade de voltar a jogá-lo, mesmo que já tenha cumprido com todos os objectivos.

Descubram este presente de Natal que saiu na Primavera e que merece ser amado e descoberto. É sem dúvida, para mim, um dos melhores videojogos e experiências do ano… e agora deixem-me montar mais uma série de combos mas desta vez com cartas que fazem dano mediante o número de moedas que tenho em minha posse.