Algum dia teria de acontecer: o Rui Parreira aconselhar-me um jogo indie dentro do meu “gosto”, eu não conhecer, e ficar muito reconhecido por isso. Estou a brincar, é claro. Nesta década de amizade, já tantas vezes o Rui me alertou para jogos que pudessem estar a passar sob o meu radar, que eu tenho muito a agradecer-lhe por isso.

Um desses casos foi este Cinderia

Neste action roguelite em Early Access os livros de histórias ganham o lugar principal, já que as 4 personagens jogáveis são adaptações de personagens bem conhecidas da fantasia. 

Por outro lado, é inegável a inspiração em Cult of the Lamb (em praticamente tudo o que Cinderia faz), na deambulação, combate, e apresentação, mas também em Darkest Dungeon, no desvio ligeiramente mais negro da sua direcção de arte.

Sendo um action roguelite, é óbvio que o foco principal acaba por ser o combate, e percebe-se nesta fase alpha que Cinderia procura um equilíbrio entre acessibilidade e exigência. As mecânicas e os controlos são suficientemente claros para evitar frustrações desnecessárias, mas deixam espaço para experimentação através das diferentes habilidades e combinações disponíveis, ainda que sinta que o conteúdo disponível nesta fase nos leva a ter uma limitação grande de builds.

O comportamento dos inimigos precisa também ele de ser ligeiramente limado, parece-me – mas pode ser uma sensação muito pessoal – que a agilidade de movimento dos inimigos é ligeiramente injusta quando comparada com a nossa capacidade de locomoção, e muitas vezes, mesmo nos primeiros mapas, acabo por perder vida não por não antever o comportamento dos adversários ou por ser cauteloso, mas porque não me seria possível escapar àquele dano.

A deambulação é feita ao estilo de The Binding of Isaac e The Cult of the Lamb: vamos definindo o nosso caminho através das sala que escolhemos atravessar sem sabermos bem o que está do outro lado; inimigos, lojas, possibilidades de cura? E teremos sempre de nos adaptar, e estar preparados para enfrentar qualquer perigo. A diversidade de eventos e inimigos ainda é relativamente limitada, mas olhando para as actualizações e promessas dos criadores, diria que é apenas uma questão de tempo para que isso seja “corrigido”.

Com estas falhas desculpáveis e compreensíveis num jogo em Early Access, tenho de reconhecer que o que aqui está é um dos jogos com maior potencial dentro do seu género, e as muitas horas e ainda maior número de runs a que lhe dediquei representaram isso mesmo: um jogo divertido, desafiante, e que tem todos os argumentos para poder ser um marco dentro dos action roguelikes 2.5D.