
(nota prévia, se reconheceram o título como uma música/poema do Cazuza, parabéns!)
Poucos jogos de tabuleiro podem orgulhar-se da receptividade e do sucesso comercial que Wingspan e as suas múltiplas expansões já tiveram. Um jogo que apelou inicialmente a muitos jogadores pelas suas belíssimas ilustrações de pássaros e aves, mas que rapidamente perceberam que o engine building que está no centro de toda a experiência é um dos mais acessíveis, familiares, porém profundos, que podemos encontrar.
Joguei a todas as expansões de Wingspan e escrevi sobre quase todas elas, e se Europe adicionou mais conteúdo, Oceania introduziu o néctar enquanto recurso wild, e Asia focou a experiência para 2 jogadores, Americas não revoluciona, mas estende de forma ligeira o que já conhecemos do famoso jogo de Elizabeth Hargrave.

Em pleno modo especulativo diria que a expansão Wingspan: Americas é, muito provavelmente uma das últimas a ser lançada para o sistema de jogo de Wingspan, dado o conteúdo adicional que já existe disponível, sob risco de saturar a receptividade do público a este jogo. É possível que a série encerre com um dos locais mais diversos do mundo, o continente africano, e com isso o foco sejam os outros spin-offs.
É que a minha surpresa em ver Americas no título passou pelo facto do jogo base contar com aves do Canadá e dos EUA, rapidamente se dissipou percebi que esta expansão “desce” um pouco no mapa, virando agora a sua atenção para o México, Caraíbas, América Central e América do Sul, numa região com mais de 3.000 espécies de aves e uma diversidade biológica impressionante.
O que encontramos aqui não é apenas mais um conjunto de cartas para aumentar a variedade do jogo-base, mas uma expansão que introduz uma nova mecânica capaz de alterar a forma como pensamos algumas estratégias tradicionais de Wingspan, e que pode ser profunda o suficiente para adicionar uma camada táctica a cada playthrough. Mas depois de algumas playthroughs com as novas mecânicas não sei se a experiência é diferenciada o suficiente para revolucionar o que conhecemos de Wingspan, ou se apenas o expande ligeiramente.

Esta nova caixa, mais ecológica, inclui 111 novas cartas de aves, 40 cartas especiais de beija-flores, para além de novos objectivos, cartas de bónus e um tabuleiro adicional dedicado à nova mecânica. Como seria de esperar de Wingspan, a qualidade artística mantém-se intocada e elevadíssima, com ilustrações que destacam espécies menos conhecidas do continente americano e que mantêm o gigantesco patamar de qualidade artística da série.
O verdadeiro destaque mecânico, contudo, está nos beija-flores. Estas pequenas aves funcionam de forma diferente das restantes cartas do jogo e interagem com um novo tabuleiro comum, designado por jardim dos beija-flores, para além do próprio tamanho das cartas ser mais reduzido para as distinguir das restantes centenas de cartas que o jogo já possui.
Em vez de permanecerem permanentemente na reserva pessoal do nosso tabuleiro, os beija-flores podem deslocar-se entre áreas individuais actualizadas e um espaço partilhado, criando novas oportunidades de pontuação e novas decisões tácticas. O sistema acrescenta um elemento de competição indirecta que não existia de forma tão pronunciada nas expansões anteriores, onde subitamente passamos a ter de deixar de olhar apenas para o desenvolvimento do nosso próprio motor de jogo e passamos também a acompanhar mais atentamente o que os adversários estão a fazer com os seus beija-flores.

Paralelo ao segmento de tabuleiro novo que sobrepomos ao já conhecido tabuleiro pessoal de Wingspan, que contém, em cada um dos 3 habitats uma slot para adicionar cartas mais pequenas de beija-flor, e que permite que a mecânica habitual de activar todos os nossos pássaros da direita para a esquerda inclua também estas pequenas aves no final da sequência.
E aí temos duas decisões: se o espaço estiver vazio, retiramos do tabuleiro partilhado um beija-flor da “espécie” que queremos, e activamos o seu poder de imediato. Se por outro lado a slot já está ocupada, temos de devolver essa carta ao tabuleiro partilhado, tapando um pássaro presente, e subimos a pontuação na coluna correspondente do nosso jardim pessoal, ora da espécie do pássaro que devolvemos, ora do pássaro que cobrimos.
Um aspecto positivo desta ligeira adição mecânica é o facto de a expansão permanecer relativamente acessível, e de as regras não complicarem excessivamente a experiência: quem já conhece Wingspan conseguirá integrar os novos elementos com facilidade. Aliás, se virem bem, consegui explicar num parágrafo e meio a adição mecânica que este Wingspan Americas traz, ficando apenas explicar o que cada ícone de poder significa.

Com o vasto número de expansões, chegámos a um momento em que a crescente quantidade de cartas começa a tornar o baralho global cada vez mais vasto, o que leva a que alguns efeitos específicos dos beija-flores possam surgir com menos frequência quando todas as expansões são misturadas, reduzindo um pouco a visibilidade e viabilidade da nova mecânica.
Existe também uma pequena limitação relacionada com o modo Flock de 6 a 7 jogadores introduzido em Wingspan Asia: o sistema dos beija-flores não foi concebido para esses números de participantes e não é suportado oficialmente sem adaptações adicionais.
Wingspan: Americas acrescenta mais conteúdo e novas ideias, mas não torna este novo formato algo obrigatório para quem já gosta de Wingspan. Diria que os beija-flores nos possibilitam uma experiência sobretudo mais longa, mas que não é inovadora ou profunda o suficiente para se tornar o novo standard de como jogar Wingspan, já que a experiência base, mesmo sem qualquer expansão, já é afinada o suficiente para existir por si mesma. Americas surge aqui como um palate cleanser para jogadores experientes de Wingspan, que podem desta forma alterar ligeiramente a experiência, estendendo-a, sem a alterar de forma profunda.













