Não diria propriamente que sou sovina, mas acredito que, a par do que deve acontecer com toda a gente que tenha a possibilidade de ter algum capital disponível para gastar em hobbies, tenho um foco muito específico com as minhas despesas. Para algumas pessoas o gasto em carros, saídas, jantares e álcool faz sentido e é a sua prioridade, e provavelmente essas mesmas pessoas ficariam chocadas com a forma como direcciono os meus gastos para os jogos de tabuleiro. Mas se me rendo aos board games, por outro lado tento comprar videojogos apenas fora do período de lançamento, já com desconto, e quando falamos de acessórios, tento mesmo ir para o mais acessível financeiramente possível, contando com marcas com parceria oficial, mas low budget quando comparadas com os originais.

Esta é uma introdução longa para situar quem lê que a probabilidade de eu comprar um comando premium como o SCUF Omega seria praticamente impossível, por sentir que o seu nível de qualidade e exigência se aproximava de um jogador com um perfil que não é o meu. Mas depois de o usar ao longo de semanas fico com a sensação que me é difícil voltar a pegar nos comandos de marca branca que uso no PC, ou mesmo regressar aos meus Dual Sense, com a mesma abertura. 

Uma comparação simples, para aqueles que, como eu, são amantes de vinho tinto, é simples de perceber: costumo ter em casa garrafas de Reguengos tinto, que no rácio qualidade-preço é excelente nos seus 3,49€ de preço habitual. Mas se beber um Herdade do Gamito Reserva Tinto 2020, que costuma estar à venda a 21,99€, a diferença é entre a noite e o dia. Ou como diz a máxima popular, como água e vinho, e é nesta comparação que reside isto a minha experiência com este comando.

(Se recebessem 1€ por cada artigo de análise a um comando de consola que subitamente fizesse a comparação para uma experiência gourmet vinícola, suponho que teriam um total de… 1€?)

Não sou de todo um entendido em comandos premium ou profissionais, mas este sentimento de tabula rasa fez-me pesquisar esta linha SCUF da Corsair e perceber como é que chegámos a este modelo oficial da PS5 e direccionado ao segmento competitivo. E o que me motivou a explorar o passado desta ligação entre a Corsair e a PlayStation foi apenas a minha surpresa ao receber uma caixa do comando, azul e branca, tal e qual como as originais da Sony, a evidenciar logo no primeiro contacto que mais que um periférico meramente compatível, encontramos aqui um comando assumidamente integrado com a aprovação da gigante de Tóquio.

O SCUF Omega é assim o novo passo na estratégia de um dos pioneiros da personalização dos comandos de consola que foi adquirido pela Corsair em 2019, que abandonou a estratégia da sua linha Reflex assentes na modificação de chassis de DualSense para uma experiência de jogo premium oficialmente licenciada para PlayStation 5, mas também compatível com PC, Mac, iOS e Android. 

Há algo interessante neste licenciamento: dado o seu patamar de preço de cerca de 240 euros, o Omega posiciona-se claramente no segmento premium directamente em concorrência com o DualSense Edge da Sony, sendo que ainda assim temos diferenças entre ambos.

A primeira impressão que temos ao pegar no SCUF Omega é de imediato a de um comando concebido para jogos competitivos. Aliás, o meu filho mais velho, que costuma jogar jogos competitivos online como FIFA, Rocket League e My Hero Ultra Rumble acabou por adoptá-lo como comando derradeiro, fazendo um hostile takeover à sua propriedade num gigantesco “dibs” que não teve a oportunidade de ser refutado por ninguém cá em casa: o SCUF Omega encontrou nele o seu público-alvo.

Como seria de esperar de uma casa com o histórico da SCUF, a aposta é totalmente dedicada à personalização, oferecendo 11 botões customizáveis adicionais: quatro patilhas/botões traseiros, dois botões laterais e cinco teclas G programáveis no rodapé do painel frontal. No total dispomos de 28 botões distintos, totalmente programáveis e “afináveis” com a app mobile que eleva a personalização do comando para um fine-tuning que não é necessário para o jogador comum, mas é obrigatório para quem quer uma experiência competitiva profissional. Ou, dada a vasta quantidade de botões, quem quiser adicionar uma série de atalhos em jogos que têm longas barras de habilidades, usualmente mais indicadas para a facilidade de acesso de um teclado, permitindo fazer um leque de acções alargados sem mover os dedos dos analógicos.

A utilização da app mobile permite configurar perfis, curvas de resposta, zonas mortas, sensibilidade dos analógicos, opções específicas para jogos de luta, e muitos outros parâmetros que um jogador plug ‘n play como eu nem imagina que sejam necessários de ajustar, directamente através de um smartphone, tornando a personalização mais acessível e imediata.

Outro aspecto importante e que há 1 mês e meio nem teria noção – não fosse o facto de que 2 dos meus DualSense tiveram de ir até ao norte a casa do Reparador Implacável da comunidade Split-Chicken para corrigir um teimoso e definitivo drift – é que os analógicos do SCUF têm tecnologia TMR (Tunnel Magnetoresistance), uma evolução dos sensores magnéticos que procura reduzir (ou eliminar) os problemas de desgaste e drift, um diagnóstico infelizmente comum à maioria dos comandos modernos. 

Não sendo um jogador competitivo, onde a minha experiência com o SCUF Omega se diferenciou das minhas experiências com qualquer outro comando que usei anteriormente foi na sensação dos botões em si. Há um imediatismo na acção, em que o botão é premido sem resistência mecânica e com uma suavidade táctil que é um contributo dos interruptores mecânicos Omron em cada botão*.

Com a versatilidade de poder ser usado nas duas plataformas que mais uso, PC e PS5, a escolha é também dupla: podemos decidir se queremos uma experiência wireless ou wired. Uma escolha que não é imediata e que me levou a um momento em que me senti perdido: é que os interruptores para indicar se queremos jogar com ou sem fios, no PC, PS5 ou mobile (através de Bluetooth) está sob a placa frontal, e eu não os encontrava até ter visto um vídeo online de alguém a retirá-la. Nabice minha. Placa essa que, no espírito da customização que é apanágio da SCUF, pode ser confortavelmente retirada quase de imediato, visto que esta é colocada no chassis através de magnetismo, sem termos de forçar a sua retirada ou utilizar ferramentas adicionais.

Se quisermos jogar em modo wireless em PC e PS5 necessitamos de introduzir o dongle USB-C nas portas respectivas, e o reconhecimento por ambos os ambientes é imediato. Esta conexão por dongle tem alguns “senãos” de qualidade de vida, sendo que o mais óbvio é a sua incapacidade natural de “acordar” a consola, já que essa propriedade está disponível apenas para DualSense nativos (ou periféricos que o mimetizam). O SCUF Omega é um periférico licenciado mas não utiliza a tecnologia nativa do DualSense para se conectar à consola, necessitando, como vimos, de um dongle wireless.

Outra diferença para com o DualSense é a inexistência de vibração e resposta háptica, o que se compreende dado que o seu público-alvo – o mercado competitivo – não necessita desta característica que habitualmente está mais ligada à imersão das experiências single player. E é esta característica que o torna um dos elementos mais agradáveis para mim, já que o torna mais leve e, portanto, mais confortável para sessões mais longas de jogo, tendo também, por razões óbvias, uma bateria mais longeva.

Um elemento que me agradou em termos de configuração da experiência é um pequeno “travão” que podemos rodar sob cada um dos triggers, de forma a reduzir ou aumentar o tempo de pressão de cada um deles, entre algo mais próximo do clique de um rato e um movimento completo como o que temos nos jogos de corrida. Um pormenor de design muito simples, mas extremamente interessante para customizar a pressão dos triggers não só à vontade de cada um, mas também do género que estamos a jogar.

No entanto, apesar de ser oficialmente licenciado, está, como dissemos, a chocar de frente no segmento do DualSense Edge, com um preço ligeiramente mais elevado. E na comparação, especialmente para jogadores proeminentemente de jogos single player, o SCUF Omega fica a perder para o comando premium oficial da PlayStation. Para além da ausência da vibração, o SCUF Omega não tem altifalante, nem microfone incluído, segmentando-o especificamente para um tipo de jogador, com a ausência destas características.

Para mim, o SCUF Omega não só é o comando “mais premium” que utilizei, como é também um dos mais confortáveis em longas sessões de jogo. Oferece-nos um nível de personalização profundo, com muitas adições de tecnologia moderna nos analógicos TRM, inclusão de botões mecânicos de elevada qualidade e funcionalidades claramente orientadas para o jogo competitivo. Para jogadores de survival games ou farming RPGs (apenas para dar um exemplo) onde a panóplia de acções disponíveis costuma estar direccionada para o teclado, a possibilidade de personalizar os seus 28 botões é uma resposta quase certeira. Mas o seu preço elevado será o maior detractor para jogadores não-competitivos, que por cerca de ⅓ do preço podem optar por um DualSense original. Onde o SCUF Omega parece não ter rival dado o seu nível de customização, conforto nas pegas e na leveza do comando, é para os jogos competitivos, que encontrarão aqui o seu parceiro perfeito para uma experiência competitiva online onde a desculpa do “foi o lag do botão” já não existe.

* depois de meses a ouvir as pessoas da comunidade com jargão e conhecimento técnico sobre comandos que me passavam completamente por cima da cabeça, foi interessante investigar para este artigo e conhecer um pouco mais do que está dentro dos comandos que usamos todos os dias, e o porquê das diferenças de preço e qualidade entre eles.