Guardo com o maior carinho as memórias dos meus tempos de Faculdade, onde os esporádicos tempos livres eram dedicados a dezenas de horas a correr o que de melhor a PS2 tinha em termos de JRPGs. Uma paixão que tinha surgido anos antes na primeira PlayStation mas que ganhou outra dimensão com o catálogo dourado que a sua sucessora teve. E que pode ter contribuído parcialmente para esta ainda ser hoje a consola mais vendida da História.

Há uma nostalgia que nasce da memória e outra que nasce da estrutura. STARBITES, um dos mais recentes lançamentos desse verdadeiro porta-estandarte da melhor tradição das criações nipónicas não tenta convencer-nos de que estamos outra vez no final dos anos 1990 ou na primeira metade da década de 2000, mas recupera a arquitectura dos JRPG clássicos.

Nada de novo, já que tantos outros bons exemplos nos têm mostrado que mesmo experiências por turnos perfeitamente tradicionais conseguem tornar-se clássicos modernos. Mas esse não é o caso de STARBITES.

A história leva-nos ao planeta Bitter, um mundo reduzido a sucata depois de uma guerra antiga, onde sobreviver significa desmontar o passado para comprar mais um dia de futuro. Somos Lukida, uma sucateira que tenta por tudo livrar-se de uma gigantesca dívida que possui. 

É exactamente neste ponto narrativo inicial que STARBITES derrapa para o campo do aborrecimento. É que se há algo que os grandes e memoráveis JRPGs têm que lhes permitem permanecer no panteão da preferência de muitos jogadores é a qualidade do seu enredo, e esse, para o mal dos pecados de STARBITES, é aqui extremamente frágil.

Nem a proximidade visual com o mundo criado por Touriyama no seu manga (e posteriormente videojogo) Sandland salva o quão árida é a história de STARBITES, mas também o seu mundo explorável. Nada que nem o facto de que pilotamos mechas consiga salvar. 

Sendo verdade que o combate por turnos funciona precisamente porque nunca tenta reinventar aquilo que já conhecemos, e as possibilidades de personalização dos Motorbots e das sinergias da equipa oferecem profundidade suficiente para manter algum interesse, nada impede que o jogo se prolongue muito para além daquilo que a sua parca história consiga suportar. 

Infelizmente, também a exploração se torna repetitiva, já que a apresentação técnica e estética deste planeta revelam limitações evidentes, algo ainda posto mais a nu já que a narrativa demora demasiado tempo a encontrar um qualquer impulso. Há boas ideias espalhadas pelo caminho, mas raramente se juntam numa identidade suficientemente forte para distinguir o jogo da multidão de JRPGs inspirados nos clássicos. 

Tal como os protagonistas passam o tempo a recuperar peças de máquinas antigas para construir algo funcional, também STARBITES recolhe componentes familiares da história dos JRPG e tenta montar com eles uma aventura que seja ligeiramente mais do que mediana. E dado o agressivo preço de 49,99€, há muitos e melhores exemplos do que este para quem quer embarcar numa excelente aventura inspirada pelos clássicos.