
De entre os milhares (ou milhões de jogadores) que têm seguido algum (ou todos) os jogos Span, devo pertencer mesmo a uma minoria que tem em Finspan o seu favorito. Um jogo que dentro da lógica corrente dos jogos da Stonemaier de misturar um leve worker placement com engine building, e que com a sua temática aquática acabou por encontrar o meu sweet spot, um jogo que algumas pessoas estranham – sobretudo pelo inferior apelo dos peixes em comparação com as aves ou dragões – mas quando conhecem passam a sentir-se como peixe dentro de água.
Gostaram do trocadilho?
Quando soube da chegada de Sharks & Reefs, a minha expectativa era curiosamente moderada, já que as últimas expansões dos jogos Span pouco adicionaram de memorável para além de novas espécies. Por outro lado também tivemos as que parecem indispensáveis, ao ponto de ser difícil imaginar o jogo sem elas, e há aquelas casos que acabam por complicar um sistema que já funcionava perfeitamente. Felizmente, esta expansão percebe exactamente onde pode acrescentar valor sem cair na tentação de adicionar complexidade apenas porque sim.
A introdução dos tubarões é, à primeira vista, a grande estrela da expansão, já que traz uma diversidade de predadores. E é fácil perceber por que, já que até agora, Finspan apresentava um oceano relativamente pacífico (sem o João Chaves), onde cada peixe contribuía para o crescimento do nosso ecossistema de forma quase exclusivamente positiva e os predadores contavam-se pelos dedos das mãos.
Os tubarões vêm quebrar essa expectativa, introduzindo uma dinâmica mais agressiva, onde devorar outros peixes deixa de ser apenas um elemento temático para passar a integrar o próprio motor estratégico do jogo, com a inclusão de mais habilidades que permitem “comer” outros peixes e guardá-los como pontos sob a nossa carta de predador.

A única grande novidade mecânica, os recifes, por sua vez, representam um tipo de ligeira alteração ao tabuleiro, mas, mais do que criarem novos objectivos, acabam por enriquecer aquilo que Finspan já fazia bem: recompensar quem consegue antecipar vários turnos em simultâneo. Uma novidade que se materializa numa tira de cartão que colocamos sobre o tabuleiro original e que torna a sua utilização completamente opcional.
É que sempre que mergulhamos e chegamos ao centro do tabuleiro, onde está agora a barreira de corais, podemos “pagar” o recurso ali pedido (cartas, ovos ou peixes) e adicionar um token de coral. O número de corais vai servir não só para contabilizar pontos no final, como também para as condições para jogar algumas das novas cartas de peixe.
Há aqui uma nova dimensão táctica que senti à mesa, entre quem decidiu gastar os seus recursos a tentar maximizar a pontuação com corais, e que não o fez, e sinto que esta nova linha mecânica se torna apenas situacional, mantendo as duas estratégias possíveis e viáveis.
Naturalmente, isso também significa que Sharks & Reefs não é uma expansão pensada para convencer quem nunca ficou rendido a Finspan: quem considerava o jogo demasiado dependente de combos, quem não se sentia agradado pelos peixes ou demasiado contido na interacção entre jogadores dificilmente encontrará aqui uma mudança suficientemente profunda para alterar essa opinião, já que a identidade permanece intacta. O que muda apenas é a variedade de caminhos disponíveis para explorar essa identidade.
E talvez seja precisamente esse o maior elogio que se pode fazer a esta expansão. Em vez de tentar transformar Finspan noutro jogo, limita-se a expandir o oceano onde ele já navegava, adicionando uma mecânica que é puramente opcional. Mas eu que tenho em Finspan o meu jogo favorito da série, penso que já não o levo para a mesa sem a expansão adicionada.
É que sinto que basta compreender profundamente aquilo que tornou o jogo original especial e encontrar formas inteligentes de ampliar essas qualidades, algo que Sharks & Reefs consegue fazer sem perder de vista a elegância mecânica acessível que definem Finspan desde o primeiro mergulho.

Sharks & Reefs não é uma expansão obrigatória, nem de perto nem de longe, e mesmo a sua adição de muitas e novas espécies, sobretudo predadores, mas também a subtil e quase inócua adição dos recifes. E ao fim de algumas partidas dei por mim a pensar que talvez o verdadeiro sucesso de uma expansão seja precisamente este: deixar-nos com a sensação de que o jogo poderia ser assim desde o início, dada a subtileza da adição mecânica. Não porque apague a memória da versão original, mas porque torna difícil imaginar regressar a este tabuleiro marinho sem os novos corais, sem sentir que o oceano ficou, subitamente, um pouco mais vazio.













