
Os nomes têm peso, e os títulos de jogos emblemáticos têm ainda mais. Especialmente quando vemos surgirem spin-offs que tentam capitalizar essas ideias originais noutras abordagens, e deixam, naqueles que gostaram do que foi feito na obra que deu origem, uma expectativa do que aí vem.
STARSEEKER: Astroneer Expeditions tem esse peso gravitacional sobre ele, já que pega na pá e continua a escavar o mesmo planeta onde Astroneer nos deixou, mas leva a experiência para esse elemento da moda: os extraction games. A System Era decidiu desmontar a nave de Astroneer, aproveitar dela o que ainda fazia sentido e montar uma máquina diferente a partir dessas peças.
O resultado é um jogo que reconhecemos imediatamente pela sua direcção artística, mas que nos obriga a reaprender quase tudo o resto, e no final, como vamos perceber, essa nova existência pode estar muitos furos abaixo da que a antecedeu. É como reencontrar um velho amigo que entretanto mudou de vida: continua a ser mais ou menos a mesma pessoa, mas talvez nem tenhamos a mesma afinidade.

Essa mudança de identidade é, simultaneamente, o maior mérito criativo e o maior obstáculo de STARSEEKER. A exploração livre de Astroneer dá lugar a expedições delimitadas no tempo, a construção paciente de bases cede espaço a missões com objectivos concretos e a progressão passa a funcionar por etapas. Em teoria, dado que este jogo, ao contrário do anterior, é um extraction game, faz sentido. Na prática, depende muito daquilo que cada um esperava encontrar quando voltou a vestir o fato espacial, e a minha experiência com Astroneer é demasiado marcante para me sentir em casa com esta nova tónica.
O curioso é que o jogo raramente falha por aquilo que faz, mas fica aquém, sobretudo, porque nos obriga a comparar constantemente aquilo que faz com aquilo que deixou de fazer. Em Astroneer explorávamos porque queríamos saber o que estava mais à frente, e construíamos porque imaginávamos uma forma mais eficiente de ligar duas máquinas. Perdíamos horas sem darmos por elas porque o jogo nunca nos apressava, ainda que, por outro lado, STARSEEKER troque essa curiosidade quase infantil por uma necessidade de eficiência, em que cada missão parece ter uma lista de tarefas para cumprir antes de nos deixar regressar à nave-mãe.

Isso não significa que a experiência seja desprovida de momentos memoráveis, muito pelo contrário. A cooperação é o verdadeiro combustível da aventura, sobretudo quando todos compreendem o seu papel e a expedição se transforma numa coreografia improvisada entre exploração, recolha de recursos e resolução de problemas. Resultando numa experiência quase cosy e quase light de outros expedition games.
O problema é que essa coreografia começa a repetir os mesmos passos demasiado cedo: a variedade de objectivos é limitada, o tutorial explica menos do que devia e alguns problemas técnicos acabam por interromper um ritmo que já de si luta para manter a novidade viva para além do reduzido conteúdo que o jogo tem. Mas dão-nos a impressão de que STARSEEKER é uma nave que saiu da doca antes da tripulação terminar os últimos ajustes e acertos.
Talvez a decisão mais difícil de aceitar seja a dependência quase absoluta da estrutura online, que colide com a experiência sandbox cozy do original: Astroneer sempre transmitiu uma estranha sensação de solidão confortável, como se cada planeta fosse um pequeno laboratório onde podíamos experimentar ideias ao nosso ritmo e ao nosso tempo. STARSEEKER prefere lembrar-nos constantemente que estamos integrados numa operação maior, onde cada expedição tem princípio, meio e fim, e essa pressa colide com a aura cozy que o jogo tenta dar a um extraction game.

STARSEEKER: Astroneer Expeditions deixa a sensação de um firmamento onde já conseguimos distinguir algumas estrelas particularmente brilhantes, mas ainda faltam demasiados pontos de luz para formar um desenho coerente, ou talvez estejamos à procura no céu de uma constelação que tão bem conhecemos. Um Early Access em que os elementos originais de Astroneer dão lugar a um jogo cooperativo onde a filosofia central parece colidir em excesso com aquilo que nos fez gostar tanto do primeiro jogo.













