Continuando na nossa senda por jogos “isto, mas roguelike” onde já falámos de Dialoop e de Clover Pit, temos um jogo que adiciona ainda mais uma variável: “isto, mas roguelike, e com civilization builder à mistura”.

Mesmo tendo passado muito tempo de volta de Clover Pit, continuo a ter zero proximidade com o gambling, mas sei que há uma razão para as slot machines continuarem a exercer tanto fascínio, mesmo sobre quem sabe perfeitamente que as probabilidades estão devastadoramente contra si. É que nas slots não se trata apenas da possibilidade de ganhar ou do sunken cost de quem já investiu muito numa máquina: mas é sim, a expectativa, aqueles poucos segundos em que os cilindros giram transformam qualquer resultado numa promessa, alimentando a ilusão de que a próxima combinação poderá finalmente ser aquela que vai transformar alguém em milionário. 

Spinera pega precisamente nesse ritual quase hipnótico e pavloviano e pergunta uma questão improvável: e se, em vez de procurarmos enriquecer um jogador com a mão numa alavanca, utilizássemos esse mesmo mecanismo para erguer uma civilização inteira?

À primeira vista, a ideia parece absurda, já que os civilization builders vivem normalmente da planificação progressiva da optimização dos recursos disponíveis e de decisões cuidadosamente ponderadas ao longo ao longo de dezenas de horas. As slot machines representam exactamente o oposto: aleatoriedade, risco, impulsividade e imediatismo. 

A maior surpresa desta dicotomia é que Spinera consegue fazer estas duas filosofias coexistirem sem que nenhuma anule a outra, onde cada rotação dos cilindros da slot machine produz recursos, edifícios, habitantes ou eventos que nos obrigam a adaptar constantemente a estratégia que definimos, transformando aquilo que poderia ser um mero exercício de sorte numa sucessão permanente de decisões.

É precisamente nessa necessidade de adaptação que encontramos a sua maior qualidade: em vez de construirmos uma cidade seguindo um plano rígido desde o primeiro minuto, aprendemos a trabalhar com aquilo que o acaso decide colocar nas nossas mãos. Uma combinação inesperada pode acelerar completamente o crescimento da povoação, enquanto uma sequência menos feliz obriga-nos a repensar prioridades e a encontrar soluções alternativas. Spinera dá-nos a sensação de que estamos sempre a improvisar sem nunca perder totalmente o controlo da situação.

Porém, existem momentos em que a componente aleatória pesa mais do que seria desejável e algumas partidas parecem definidas demasiado cedo pelas combinações iniciais obtidas. Embora a gestão dos recursos continue a desempenhar um papel importante, há ocasiões em que sentimos estar mais dependentes da próxima rotação do que da qualidade das decisões tomadas até esse momento, com a sorte a pesar em excesso na balança, ora não fosse este um jogo baseado em slot machines.

Apesar de ter jogado apenas a demo, sinto que Spinera acaba por demonstrar que existe mais em comum entre a tarefa de erigir um império e a aleatoriedade de uma slot machine do que seria razoável imaginar: ambos vivem de ciclos, ambos dependem da gestão do risco e ambos alimentam a esperança de que a próxima jogada resolverá os problemas deixados pela anterior.