
E no princípio tudo começou com a ingenuidade e o desejo de criar algo pessoal, fazer jogos e jogá-los: o Unix foi o precursor dos sistemas operativos modernos e com ele Ken Thompson – o seu autor – criou assim algo que ainda hoje inspira e inspirou. O grande exemplo foi uns anos mais tarde a criação do Linux pelo Linus Trovalds também fruto da ingenuidade, engenho e a necessidade de criar algo pessoal e também acessível. Este Linux veio a ser a base para um conjunto de sistemas operativos que todos chamam de Linux e que não é mais do que o Kernel ou núcleo para um sistema operativo, que democratizou a informática para uso pessoal e foi mais do que uma evolução do que já ocorria com as centenas de micro computadores baseados em basic como o ZX Spectrum e o Commodore 64.

A geração mais nova que nasceu nos finais dos anos 1990 e inícios dos anos 2000 pode não saber ou recordar-se do que foi aquela geração anterior à sua, que viu com entusiasmo o que foi a revolução na democratização informática iniciada pelos microcomputadores dos anos 1980. Bem, alguns podem-se lembrar pois os seus pais provavelmente já tinham utilizado um desses micro computadores para jogar sob o pretexto que tinham ali uma máquina para a escola, e para muitos deles foi o “jump-start” para o início duma carreira que acabou por formar técnicos, engenheiros de software e hardware e até mesmo “developers” de jogos populares e de series que hoje ainda são ícones da indústria de videojogos.
O Linux como família de sistemas operativos para simplificar o conceito, teve um longo caminho para chegar ao que é hoje. Linux é o pilar de toda a tecnologia que está à nossa volta, os servidores que dão vida à nossa internet na sua maioria correm um sistema operativo Linux, mais de metade dos smartphones que hoje fazem parte do nosso quotidiano usam Android que é uma variante do Linux, as consolas correm uma variante do Unix o pai de todos estes sistemas operativos, e o OpenBSD é o primo em primeiro grau do Linux.

O facto de existir um kernel que nos permite construir e desenvolver em torno dele soluções personalizadas para todas as necessidades sem que haja limites como os existentes em sistemas operativos de código fechado como o Windows ou o Mac OS permitiu e permite que evolua a um passo mais rápido e preencha lacunas que não eram possíveis, é uma ferramenta que todos podem usar tanto a nível pessoal como profissional.
E nessa longa história vemos o culminar novamente para o uso pessoal, desde novamente microcomputadores do tamanho de cartões de crédito como o Raspberry Pi que tem exatamente o mesmo princípio de uso que tiveram os microcomputadores dos anos 1980 que vieram a formar novos engenheiros e entusiastas na tecnologia.

Neste culminar vemos muitos produtos a nascer, mais precisamente para entretenimento: muitos foram pioneiros mas não conseguiram vincar, como o caso da Ouya, mas mesmo com os erros aprende-se e o Steam Deck reacendeu a tocha que nos leva novamente a este caminho. É um sucesso que originou um novo mercado que pedia uma máquina prática que pudesse ser levada para qualquer lado e ao mesmo tempo pudesse correr aqueles jogos que já tínhamos no Steam. Pode-se dizer que foi o primeiro produto verdadeiramente amigo do consumidor neste aspecto, que quebrou aquela barreira das consolas dominantes que nos obrigavam a voltar a adquirir os jogos que já possuíamos no antecessor, com a praticabilidade de serem jogos também mais acessíveis ao bolso. Assim surge o renascimento das portáteis!

Mas então com esta história toda, onde cabe a Steam Machine? O que mudou?
A renovada Steam Machine (porque a Valve já tentou uma primeira vez sem sucesso), foi anunciada.
O Steam Deck está bem instalado no mercado, é um sucesso e com ele carregou às costas uma grande lacuna existente com o Linux. Na indústria do gaming o Linux era apenas uma curiosidade, mas hoje é uma realidade que não precisamos de Windows para jogar 90% dos jogos existentes. E sim, o Windows ainda detém o monopólio, mas depois destes anos todos já é viável jogar em Linux.
Esta mudança de paradigma começou quando a Valve entrou em desacordo com a direção que a Microsoft estava a levar com o Windows a tornar-se ainda mais fechado. O objetivo era claro: destruir toda a concorrência por muito minúscula que fosse e a Valve via o seu serviço Steam em risco. Assim iniciou o desenvolvimento do Steam OS baseado em Linux com uma camada de compatibilidade que lhe permitia correr software/jogos Windows. Esta mesma camada de compatibilidade que é confundida com emulação já existia e chamava-se Wine, mas o seu desenvolvimento era lento e a compatibilidade limitada. A Valve pegou nisso e melhorou, deu-lhe o empurrão necessário ao ponto que até ao dia em que escrevi este artigo o Linux/Steam Os corre 90% dos jogos da sua biblioteca!

A Steam Box serve para quê e para quem?
Como qualquer outro produto, há um target específico, seria pouco honesto dizer a toda a gente que o devia comprar logo no primeiro dia. A Steam Box não vai agradar a toda a gente como disse, e é baseada em Linux e em princípio irá correr 90% dos jogos que estão no Steam, o que vai depender dos jogos que vocês têm na vossa biblioteca e pretendem jogar.
Aqueles 10% na sua maioria até correm, contudo o problema maior está nos jogos com componente online obrigatória que requer uma ligação permanente a software anti-cheat: a razão para isto é a forma como o kernel do Linux funciona e explicando-o de forma muito básica esta forma de DRM não só anti-cheat pede um acesso total ao kernel e isso não é seguro, pois se uma empresa tem acesso total ao vosso PC também alguém mal intencionado o vai ter e por isso que DRM e anti-cheats não funcionam. Outra das razões está também no facto dos developers não quererem perder tempo com oLinux porque é ainda um sistema operativo niche que só representa 3 a 4% do mercado.
Mas alguns dos jogos que usam anti-cheats funcionam porque houve incentivo por parte dos developers em suportar o Linux com a ajuda da popularização do Steam Deck.
Aos poucos todos estes obstáculos irão ser ultrapassados, o tempo que isso vai levar vai depender do sucesso da Steam Box.

Então o que posso esperar da Steam Box?
É importante saber que é um PC em todos os aspetos, desenvolvido e afinado para que os seus utilizadores tenham um usufruto facilitado: o conceito é extremamente similar a uma consola com a grande diferença de que é um sistema aberto onde o seu utilizador tem total liberdade para fazer o que quer dele. Diria que é um PC que também é uma consola.

Quem já possui umSteam Deck, a experiência irá ser similar, é um dispositivo pronto para ser usado sem qualquer necessidade de mexer, aliás, está bem mais preparado para ligar e ser imediatamente usado do que uma máquina com Linux, aproximando-se duma consola como a PlayStation 5 ou Xbox Series S/X.
Para quem já possuiu um bom PC para gaming pode não ter interesse, contudo, se precisam de algo prático que além de jogos possa servir como uma box multimédia para meter na sala de estar ou até como um segundo PC, a Steam BOX é o aparelho ideal.

Explicando as polémicas e as preocupações.
Após o anúncio e divulgação das especificações, surgiram muitos comentários e artigos com a preocupação de que o hardware era mediano e tinha pouca memória RAM etc. A Valve respondeu que o hardware é em prática superior a 70% do hardware registado no Steam, existem, portanto, PCs gaming mais fracos que a Steam Box e isso é a realidade, um facto. Não é necessário um PC topo de gama para correr e usufruir dos jogos, quem possuiu já um PC de topo de gama não é o target.
O que podem esperar da Steam Box é o que podem esperar duma consola competente que corre os vossos jogos com a liberdade que existe num PC.

Vamos esperar assim pelo seu lançamento. Falarei mais sobre esta nova “GabeBox”!
Fontes:
“Unix e Ken Thompson” – https://en.wikipedia.org/wiki/Ken_Thompson#Career_and_research
“Micro-computadores” – https://encyclopedia.pub/entry/31346
Sobre o Kernel/Linux – https://pt.wikipedia.org/wiki/Linux_(n%C3%BAcleo)
“70% do hardware registado” – https://www.techpowerup.com/342970/valve-claims-steam-machine-outperforms-70-of-current-gaming-pcs
“Linux corre 90% dos jogos” – https://www.tweaktown.com/news/108542/90-percent-of-windows-games-now-run-on-linux-just-in-time-for-steamos-to-go-mainstream/index.html
“Artigo sobre o/a Steam Machine e Proton” – https://www.rockpapershotgun.com/why-a-new-steam-machine-when-the-first-ones-flopped-because-this-time-valve-say-itll-actually-have-games
Página do Proton – https://www.protondb.com/


















