Adoro city builders. Há uma parte de mim bem escondida que deve ser um cruzamento entre um autarca em potência e um sequioso arquitecto, e que encontram o prometido ninho num abraço dado por este género. Um bom city builder consegue fazer as horas passarem num ápice, como um teleporte horário que nos leva para o futuro sem percebermos bem como. Um mau city builder é como um mau emprego: as horas que nos tira são apenas isso, um roubo cronológico. Mas no caso do emprego ainda levamos o salário para casa.

Foundation apareceu-me assim de rompante, como um discreto city builder indie a chegar a Early Access ao Steam. Escaldado com muitas más propostas do género (e num ano em que o género tem dois pesos-pesados a chegar: a Ubisoft com mais um Anno e a Kalypso com Tropico 6), as minhas expectativas eram, como seria de esperar, baixas.

Passaram-se 3 horas entre o momento que fiz double click no ícone de Foundation e o momento em que me apercebi que o meu cansaço físico estava impossível de ultrapassar.

Precisei de mais 12 horas de jogo para perceber o que é que este jogo – ao qual falta ainda muito conteúdo – fazia de tão bem. Mas agora consigo identificá-lo: é o organicismo realista, a consciência de que as cidades são organismos vivos que crescem mediante a geografia onde estão implantados. E Foundations é capaz de ser o primeiro jogo a traduzir imenso mesmo.

Ainda esta semana discutia isso durante o stream que fiz de Foundation. As cidades, especialmente as de origem medieval, não são ortonormadas, nem sequer foram planeadas. Excepção existe, é claro, na Baixa lisboeta. Mas depois de uma terraplanagem como a que aconteceu devido a uma das maiores tragédias naturais da História da Europa, Lisboa recebeu um reset urbanístico e pôde ser planeada pelas mentes de Carlos Mardel, Eugénio dos Santos e Manuel da Maia. Mas basta irmos para a zona do Castelo de S. Jorge ou observarmos a Baixa portuense para sentirmos esse organicismo do crescimento das cidades, em que as casas vão surgindo independentemente dos acidentes geográficos.

Na maioria dos city builders, sejam eles medievais ou futuristas, existe uma obsessão geométrica de ortonormalizar as cidades, como se elas sempre tivessem existido desenhadas a régua e esquadro. Foundation mantém-se mais fiel à realidade histórica do crescimento das cidades europeias medievais, com a malha da urbe a surgir intrinsecamente ligada aos acidentes geográficos.

Começamos Foundation (que não, não é uma homenagem ao livro de Asimov) com alguns colonos e a necessidade de construir o ponto central da nossa cidade. A partir daí temos de atribuir profissões a esses mesmo colonos (sendo que estas profissões não são definitivas, e podem ser trocadas a qualquer momento), começar a construir os primeiros edifícios para recolher os mais elementares dos recursos (madeira, pedra e bagas), para além de termos de “pintar” as zonas onde os colonos trabalharão, definindo-as como zonas de extracção.

Neste jogo somos nós quem decide onde e como construímos novos edifícios, independentemente do ângulo ou da geografia (se for realístico de construir, como é óbvio). A única excepção são as zonas residenciais, que são definidas por nós, mas a construção de casas e as suas melhorias são feitas por “decisão” e necessidade dos nossos cidadãos.

Apesar do quão sólido o jogo se encontrar neste momento, há vários pormenores que nos lembram que ele ainda está em Early Access. Sejam os placeholders de texto, ou a falta de evolução das profissões e especializações dos nossos cidadãos para além do primeiro nível, ou mesmo pela falta de ameaças. Como Foundation está agora, a única e grande ameaça é interna: a falta de felicidade dos nossos cidadãos e o seu abandono da nossa cidade. Ameaças como roubos e problemas económicos que estão projectados, mas ainda não estão aplicados, têm aqui a sua ausência neste momento de desenvolvimento.

A repetição e monotonia das poucas quests disponíveis são outro dos pontos que nos relembra o estado alpha de Foundation, ainda que toda a solidez existente nos faça pensar o contrário.

Com uma excelente e deliciosa direcção artística entre o cartoonizado e alguns laivos de inspiração low poly (não sendo de forma alguma low poly per se), com uma aplicação mecânica perfeitamente sólido e cativante, mas sobretudo pelo aspecto orgânico do crescimento e expansão das nossas cidades é que acho Foundation um dos jogos fundamentais deste ano, mesmo em Early Access, e perfeitamente obrigatório para fãs de city builders.